sábado, 15 de maio de 2010

Hercule Poirot em ação mais uma vez

  Assassinato no Expresso do Oriente - ponto alto na filmografia baseada em Agatha Christie




Caroline Wilt Araújo

Agatha Christie vem através de décadas encantando e arrebatando milhares de fãs por todo o mundo. Ela, mais do que qualquer outra mulher, ganhou muito dinheiro com o crime. Seus editores perderam as contas da vendagem de seus livros, tamanho é seu sucesso. Além das obras publicadas com o sobrenome usual Christie, produziu ainda peças com o pseudônimo de Mary Westmacott, além de escrever narrativas sobre suas inúmeras viagens com o nome de casada, Agatha Christie Mallowan.
 Uma das obras de grande sucesso da autora foi Assassinato no Expresso do Oriente, originalmente lançado em 1933. Nela, a grande estrela da trama é ninguém mais, ninguém menos que o detetive belga Hercule Poirot.
 A trama se passa no Expresso do Oriente, propriedade da Companhia Internacional Wagons-Lits, que durante seu percurso, em meio a situações adversas, acaba parando no meio de seu trajeto devido a intensa neve. É nesse meio tempo, que um crime acontece, um homem, Ratchett, é encontrado morto em sua cabina com 12 facadas e alguns objetos deixados propositalmente ao seu redor, o que leva o dono da companhia, Monsieur Bouc a solicitar os trabalhos de Poirot, que é seu velho amigo, para que solucione o mistério antes da chegada da polícia.
 Durante a trama, nos deparamos com personagens de várias nacionalidades e posições sociais, e que, ao desenrolar dos fatos vão apresentando sutilmente terem muito em comum: o convívio com a família Armstrong, a qual está diretamente ligada ao crime ocorrido no trem.
 Assassinato no Expresso Oriente, (Murder on the Orient Express, EUA, 1974), sob a direção de Sidney Lumet, é uma produção cinematográfica que expressa com lealdade e riqueza de detalhes aquilo que se passa no livro em que foi baseado. Muitos são os casos de filmes que deixam a desejar quando procuram representar um livro, porém, neste caso, pode-se dizer que a essência do livro encontra-se claramente na tela.
 Hercule Poirot, tanto no livro quanto caracterizado brilhantemente por Albert Finney, surpreende mais uma vez pela sagacidade, dedicação e acidez com que consegue resolver o crime. Finney conseguiu captar a personalidade única do detetive belga, tornando-o por momentos, cômico, mas sem perder a seriedade com que realiza seu trabalho. Sua excentricidade é marcante mais no filme do que no próprio livro, em que aparecem seus cuidados excessivos com a aparência, suas manias. Dono de uma mente extraordinária, Poirot conta com a ajuda de seu amigo e dono da companhia Mounsieur Bouc, no filme, Sr. Bianchi, e com o médico que estava a bordo do outro vagão, o Pullman, Doutor Constantine. Enquanto estes tentavam deliberadamente achar logo um culpado, Poirot utiliza suas técnicas, seus jogos psicológicos para só no fim dizer suas conclusões, o que na verdade, surpreende não somente os leitores, mas também os próprios personagens, como se vê ao final da obra.
 O longa conta com a participação de artistas de peso, como Albert Finney,  Sean Connery, Anthony Perkins, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, entre outros.
 As duas obras com certeza fazem jus ao nome dado a Agatha por suas criações sobre crimes, Rainha do Crime. O clima é envolvente do começo ao fim, prendendo a atenção e surpreendendo ao final. 

sexta-feira, 14 de maio de 2010

“Assassinatos a Bordo” (Murder Ahoy)

Miss Marple é uma das maiores criações na literatura de Agatha Christie


Isadora Zemgeski

De George Pollock, Inglaterra, 1964.

Elenco: Margaret Rutherford, Stringer Davis, Lionel Jeffries, William Mervyn, Charles ‘Bud’ Tingwell.

Roteiro: David Pursall e Jack Seddon

Baseado em “Um Passe de Mágica” (They Do It With Mirrors) de Agatha Christie.

Música Ron Goodwin.
P&B, 93 min. 


Entre todas as suas dezenas de obras, incluindo romances, contos e peças de teatro, Agatha Christie (1890 – 1976) criou vários detetives, um deles, a anciã audaz e divertida, Jane Marple, ou Miss Marple, como é mais conhecida. A velhinha aparece em doze romances da autora e em alguns contos. Uma solteirona aparentemente comum que gosta de tricotar e, por vezes, é tida como um tanto caduca devido à idade. Entretanto Miss Marple possui uma mente lógica e afiada, sendo capaz de desvendar os mais misteriosos casos de assassinatos com base apenas em seu conhecimento pessoal da natureza humana.
A primeira vez que a personagem aparece é no romance “Assassinato na Casa do Pastor” (The Murder at the Vicarage), de 1930. Muito diferente de como seria conhecida posteriormente, Miss Marple era uma velha fofoqueira, desagradável, que incomodava os moradores do pequeno vilarejo de St. Mary Mead com seu jeito curioso e pessimista, sempre a espera do pior de todos. Posteriormente ela torna-se amável e mais moderna.
Somada a sua inteligência, Miss Marple conta também com os inúmeros exemplos que vivenciou no decorrer da sua vida na pequena aldeia inglesa em que vive. Sempre que vê um crime, ela logo se lembra de algum caso semelhante ocorrido em St. Mary.
No romance “Nêmesis” (Nemesis), de 1971 – último livro da escritora –, Agatha Christie conta ao leitor que sua personagem não procura pelos crimes, estes é que estão sempre perto dela, o que não lhe agrada. 
Entre os anos de 1962 e 1965, a senhora peculiar de raciocínio lógico brilhante ganha sua versão cinematográfica em quatro filmes, todos dirigidos por George Pollock. Nenhum deles busca tornar-se um thriller clássico de suspense policial, longe disso, são filmes agradáveis, divertidos e com o senso de humor inconfundível dos britânicos, facilmente comparados com o gênero de alguns filmes de Alfred Hichcock. Seus próprios trailers trazem o bordão: “Mistério com um senso de humor assassino” (Mistery with a murderous sense of humor).
Quem encarna a heroína, é a renomada atriz britânica Margaret Rutherford, com um vasto currículo com mais de cinquenta filmes.
            “Margaret Rutherford [...] é a mais perfeita Miss Marple que qualquer fã dos livros da velhinha safada e maluca poderia imaginar. Feiosa, com uma cara esquisita, única, o queixo muito grande, o cabelo todo branquinho, com um inigualável charme, olhinhos astutos, um ar inteligente e uma incrível disposição física, ela não interpreta Miss Marple, ela é Miss Marple”
            (VAZ, 2008) 
A interpretação de Margaret coube tão bem a Miss Marple, que a própria Agatha Christie dedicou-lhe um de seus livros, “A Maldição do Espelho” (The Mirror Crack’d From Side to Side), publicado em 1962 e protagonizado, é claro, por Miss Marple. Neste livro temos o adendo “Em admiração” dedicado à atriz. Em 1980 o livro ganhou sua versão aos cinemas com Angela Lansbury (1925) como Miss Marple. Não tão fiel a velhinha carismática, mas com um trabalho bem feito.
Os quatro filmes seguem básicamente a mesma linha que mistura crime e humor, todos com uma trilha sonora cômica e passagens engraçadíssimas. Há personagens fixos, como o Inspetor-Chefe Craddock (Charles Tingwell), sempre desconfiado da verassidade das suspeitas de Miss Marple; e o fiel escudeiro da velhinha doida, Mr. Stringer (Stringer Davis), um senhor tímido e medroso que Miss Marple sempre convence a ajudá-la na resolução dos mistérios.
O terceiro filme – e o que está em questão –, “Assassinatos a Bordo”, foi gravado em 1964 e não é baseado efetivamente em nenhuma das hitórias da autora ou da personagem. Entretanto encontra-se um elemento em comum com o romance “Um Passe de Mágica (They Do It With Mirrors), publicado em 1952. Neste romance, Miss Marple visita uma amiga de Stonygates em sua velha mansão que também funciona como uma escola-reformatório para crianças. Em “Assassinatos a Bordo”, Miss Marple torna-se curadora exatamente de uma instituição para crianças delinquentes.
Todavia, os personagens e o enredo do romance são diferentes do filme. No romance, Carrie, amiga de Miss Marple, é assassinada gerando o mistério a ser desvendado. Já no filme, a instituição aparece apenas no início, quando Miss Marple torna-se curadora e um de seus novos companheiros morre de ataque cardíaco, para alguns, mas envenenado, mas para Miss Marple. A aspirante resolve provar sua tese de assassinato indo até o navio Battledore, onde os jovens delinquentes são treinados para tornarem-se marinheiros. Aparentemente alguém a bordo está fazendo uso do talento criminoso desses jovens para transformá-los em ladrões profissionais. Tudo se complica, porém, quando tripulantes começam a ser assassinados.
Pode-se dizer que George Pollock chegou ao exagero em “Assassitatos a Bordo”. A música é descaradamente cômica, o Inspetor-Chefe Craddock está ainda mais atrapalhado do que nos outros filmes, o Capitão do navio é um personagem de comédia com tiques-nervosos e trejeitos hilários, além de requintes como código morse com lanternas e Miss Marple lutando esgrima. Entretanto a produção em preto e branco nos mostra exatamente o objetivo dos quatro filmes: divertimento, entreterimento, descontração e uma pitada saborosa de mistério e crime, com base em uma das personagens mais marcantes da fabulosa Agatha Christie, ao lado de Hercule Poirot e do casal Tommy e Tupppence Beresford.

Os Outros Três Filmes:
  • Quem Viu, Quem Matou (Miss Marple: Murder, She Said) – 1962
    Baseado em “Testemunha Ocular do Crime” (4.50 From Paddington) – 1957
  • Sherlock de Saias (Miss Marple: Murder at the Gallop) – 1963
    Baseado em Hercule Poirot de “Depois do Funeral” (After the Funeral) – 1953
  • Crime é Crime (Miss Marple: Murder Most Foul) – 1965
    Baseado em Hercule Poirot de “A Morte da Sra. McGinty” (Mrs. McGinty’s Dead)  
Outras Curiosidades:
  • Mr. Stringer nunca existiu de fato nos romances de Agatha Christie. Ele aparece nos quatro filmes da série devido a um pedido de Margaret Rutherford pelo fato do ator que o interpreta, Stringer Davis, ser seu marido.
  • Margaret Rutherford foi ordenada Dame, pela Rainha Elizabeth II (Officer of the British Empire - OBE) em 1961, mais tarde, em 1967, foi ordenada Dame Commander of the Britsh Empire (Dama Comandante do Império Britânico).
  • Em nenhum dos filmes de Miss Marple nos é apresentado qualquer parente próximo da velhinha, entretanto, no romance “Assassinato na Casa do Pastor”, conhecemos um sobrinho, o autor “Raymond West”. A esposa deste é introduzida em 1933 na coletânea de contos “Os Treze Problemas” (The Thirteen Problems). Raymond é um sujeito auto-confiante que também subestima a inteligência da tia e sua habilidade em resolver mistérios.
  • Miss Marple teve, no decorrer de sua vida, uma educação notável. Conhece o campo das artes e da anatomia humana muito bem. Em “Assassinatos a Bordo” o espectador fica sabendo de sua habilidade com a esgrima e, em “Sherlock de Saias”, que Miss Marple foi campeã de hipismo nos anos 30.
  • Entre os anos 1984 e 1992, Miss Marple ganhou uma série na TV BBC. Gravada no Reino Unido, possui doze episódios, cada um com uma história de crime e suspense. Miss Marple é interpretada pela atriz Joan Hickson.
 
 
 
Referência:
VAZ, Sérgio. Quem Viu, Quem Matou / Murder, She Said. E mais três. In 50 anos de filmes. 2008. Disponível em: <http://50anosdefilmes.com.br/2006/quem-viu-quem-matou-murder-she-said-e-mais-tres/> Acesso em 1 mai 2010 às 18h56min.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

AGATHA CHRISTIE E SUA ADAPTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA EM “TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO”

 A adaptação homônima da obra de Agatha Christie surge no cinema em 1957, três anos após o lançamento do romance.



Fernando Cestaro & Flávia Almeida


Admitir nas obras de Agatha Christie a presença do mistério policial é  compreender em essência a maestria literária desta senhora capaz de prender seus leitores do início ao fim de suas narrativas. Porém, quando nos deparamos com a sua obra “Testemunha da Acusação”, em um primeiro momento, pensamos estar diante de mais um romance desta dama britânica.
O que poucos sabem é que, ela foi também uma prolífica escritora de peças teatrais (Ira Levin, 1980), e a obra em análise é um desses exemplos. A obra reúne outras peças, “A hora H”, “Veredicto” e “Retorno ao Assassinato”.  
A adaptação cinematográfica de 1957, com a direção de Billy Wilder (Oscar de melhor diretor), e com as atuações de Tyrone Power, Marlene Dietrich, Charles Laughton (Oscar de melhor ator), Elsa Lanchester (Oscar de melhor atriz coadjuvante) e John Williams, recebeu 6 Oscar, entre eles o de melhor filme. Ao materializar nas telas, personagens como Leonard Vole, Romaine (no filme, Christine) e o advogado Sir Wilfrid Robarts, o filme faz com que a trama percorra novos contornos significativos sobre o assassinato de uma rica viúva de meia idade, a Srta. Emily French.  
Nesse sentido, a obra cinematográfica soube aproveitar o roteiro que a peça engendrou e, assim, possibilitou a construção de uma teia envolvente que surpreende até os leitores mais atentos desta senhora que se imortalizou literariamente. A apresentação dos diálogos dos personagens e, principalmente, de suas atuações perante um dos mais importantes tribunais da Inglaterra, Old Bailey, provocam expectativas diferentes a cada depoimento e um flashback detalhado dos acontecimentos.
A estratégia do cinema foi conseguir utilizar as ferramentas de significação das páginas da literatura nas telas monocromáticas. O que Agatha Christie conquistou em “Testemunha da Acusação”, com seu jeito hábil, foi trazer o leitor para uma cadeira de seu teatro ficcional.
O mesmo fez o cinema com o apreciador de filmes clássicos, convidando-o para compartilhar desta criação na arte dos irmãos Lumière. Assim, o que importa é o diálogo, travado entre os personagens, e o diabólico e ambíguo jogo de falas que conduzem às situações e à trama de Agatha Christie.  
 

sábado, 8 de maio de 2010

Literatura e cinema: algumas reflexões sobre a produção voltada para o público infantil

POR FÁBIO AUGUSTO STEYER



A atual produção cinematográfica voltada para o público infantil é bastante diversificada. Há desde roteiros originais até adaptações das mais variadas obras teatrais e literárias, entre as quais têm se destacado nos últimos anos as versões fílmicas de livros também direcionados ao público juvenil, como Harry Potter, Crônicas de Nárnia, Ponte Para Terabítia, etc. Há uma predominância de filmes de fantasia, que nos remetem ao universo dos contos de fadas e mesmo da mitologia. Temos obras que pura e simplesmente são inspiradas em histórias infantis e juvenis, sendo muitas vezes atualizações do enredo para os dias de hoje; outras que procuram reproduzir de forma mais (ou menos) fiel a história original; e aquelas que, de certa maneira, “desorganizam”, no bom sentido, o texto tal como ele havia sido escrito, e que muitas vezes misturam, inclusive, personagens de várias histórias.
É neste último caso que podemos enquadrar os dois filmes que pretendemos analisar. “Deu a Louca na Chapeuzinho” (EUA, 2005), de Cory Edwards, e “Xuxa Abracadabra” (Brasil, 2003), de Moacyr Góes, são obras que têm como tema principal os contos de fadas, misturando seus enredos e personagens, incluindo atualizações nas histórias, desestruturando a ordem natural das ações e proporcionando uma visão polifônica e aberta de clássicos como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e os Sete Anões, Os Três Porquinhos, João e Maria, etc.
Sabemos que hoje em dia é extremamente difícil trabalhar com os alunos em sala de aula os clássicos da literatura infantil e juvenil. A concorrência com o computador e os meios audiovisuais parece ser o problema mais óbvio, mas não é o único. O caráter moralizante das versões mais tradicionais de muitos contos de fadas proporciona apenas uma visão bastante fechada das obras. O preceito moral é dado e pronto. E o trabalho com outras versões nem sempre é fácil, até pela conotação erótica que muitas delas compreendem. Além disso, o livro didático de Língua Portuguesa e Literatura, por si só, fecha mais ainda a interpretação dos contos, na medida em que direciona a compreensão do aluno para determinados aspectos em detrimento de outros. Isso ocorre tanto a partir da utilização de trechos isolados das obras, das atividades propostas aos alunos, quanto das ilustrações das histórias, que muitas vezes induzem os estudantes a criarem uma determinada imagem das personagens e cenas. É a visão didática que acaba se sobressaindo sobre a literária. E assim, não formamos leitores de literatura, pois todo o seu aspecto lúdico e ficcional se perde. Como diria Eni Orlandi (1987), o discurso “autoritário” prevalece sobre o discurso “lúdico”. Ou seja: a polissemia, a liberdade de interpretação, a visão plural e aberta da obra literária são substituídas por uma verdade absoluta que me diz o que é certo e o que é errado, ou que direciona minha compreensão do texto.
Parece-nos que os filmes em questão, ao “desorganizarem” (no bom sentido, como já dissemos) essa visão “autoritária” das versões tradicionais dos contos de fadas, podem contribuir de maneira significativa para que se resgate, no trabalho com os alunos, o aspecto lúdico e ficcional tão próprio da literatura. Isso permite ainda que sejam feitas relações, as mais diversas possíveis, com a realidade do mundo contemporâneo e com outros códigos e linguagens midiáticos e artísticos, desestruturando uma visão fechada e parafrásica e construindo múltiplas visões acerca das obras, aproximando-se da idéia de polissemia.
Vejamos como isso acontece nos filmes em questão. Em “Xuxa Abracadabra”, temos a história de duas crianças que literalmente “entram” num livro que é, na verdade, o mundo dos contos de fadas. Lá elas contracenam com Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Gato de Botas, João e Maria, Pinóquio, etc., e devem enfrentar (junto com a protagonista Xuxa Meneghel, é claro), um vilão misterioso que está desestruturando a vida dos moradores da floresta encantada, lugar onde vivem as personagens dos contos infantis. Um primeiro aspecto a destacar é a constante interação entre mundo real e mundo da fantasia. Assim, além das crianças entrarem no mundo dos contos de fadas, as personagens das histórias infantis vêm para o mundo real. É o caso de Pinóquio e do Lobo Mau. Este último é, quando está na vida real, um lobo de verdade, que assusta as crianças. E na floresta encantada não tem nada de mau, sendo uma versão cômica da tradicional personagem.
Outra forma de quebrar as fronteiras entre real e fantástico é o modo como no filme aparece a figura do narrador. Ele freqüentemente interage com as personagens, conversando com elas e mesmo dando opiniões sobre o que está acontecendo. A desorganização da estrutura normal das ações e personagens das histórias aparece de forma clara nas gozações que são feitas durante o filme. Assim, quando a rainha da Branca de Neve pergunta ao espelho mágico sobre o caçador que deve matar a jovem na floresta, ele responde: “O caçador? O caçador é aquela bolha que a senhora já sabe, né?”. Ou então quando a mesma rainha (interpretada por Cláudia Raia), disfarçada de velhinha, vai dar a maçã envenenada à personagem de Xuxa Meneghel (e não à Branca de Neve, como na versão tradicional), esta diz à bruxa que não vai cair naquela cilada, e que sabe que a velhinha é uma bruxa, que a maçã está envenenada, obrigando a rainha a usar outra estratégia para o envenenamento.
As referências a questões da realidade contemporânea também contribuem para essa desestruturação da ordem natural das coisas. A vovó de Chapeuzinho Vermelho, vivida por Eva Todor, é totalmente “zen”, e nas poucas vezes em que aparece no filme está meditando. Maria (de João e Maria), quando capturada pela rainha da Branca de Neve (e aí temos uma interpenetração de histórias), diz que vai recorrer ao sindicato de personagens dos contos de fadas. E o príncipe, questionado por Branca de Neve sobre a ausência de seu cavalo branco, diz que entrou num consórcio e ainda não foi sorteado.
Em “Deu a Louca na Chapeuzinho”, as estratégias são bastante parecidas. O enredo é sobre um misterioso ladrão de doces que está acabando com todas as confeitarias da floresta. Os suspeitos: Chapeuzinho Vermelho, sua avó (a doceira mais famosa do lugar), o Lobo e um lenhador. O interessante é que cada um deles conta para a polícia uma versão diferente da história. E aí já começa a polissemia. E essas versões diferentes vão se entrecruzando, no decorrer da trama, de modo a solucionar o mistério.
Quanto às personagens, fica clara a desorganização das versões tradicionais, o que inclui alguns acréscimos e sujeitos de outros contos infantis. Os Três Porquinhos são policiais e comem a comida da cena do crime.


O chefe das investigações é um sapo (quase igual ao Caco, da série televisiva Os Muppets), que parece ter saído de um filme policial “noir”. O Lobo é um jornalista investigativo, que está na floresta como repórter a mando de seu jornal. A vovó de Chapeuzinho Vermelho é praticante de esportes radicais. Chapeuzinho luta artes marciais. Há ainda um coelhinho (o vilão da trama) e um bode enfeitiçado por uma bruxa, que só pode se comunicar cantando. Ah, e o lenhador é na verdade um vendedor de doces que sonha em trabalhar no mundo da publicidade vendendo um creme para calos (!).
Alguns diálogos do filme remetem à contemporaneidade. Isso acontece, por exemplo, quando Chapeuzinho, ao ver o Lobo, diz: “Você de novo?!?! O que eu preciso fazer, conseguir um mandado de segurança?” Em outros momentos, ironizam algumas passagens da história. O sapo policial pergunta a Chapeuzinho: “Então o lobo estava vestido como a sua avó?” Ela responde que sim. E o sapo pergunta de novo: “E você caiu nessa?” Ela responde: “Claro que não!”.
Destaque ainda para uma bela canção do filme, num momento da trama em que Chapeuzinho está confusa, triste, sem saber o que fazer. A música diz que naquele momento “vermelho é azul”, associando a cor azul à incerteza e à solidão da personagem. Tudo acompanhado por uma bela fotografia totalmente em tons azuis, apenas nesta parte do filme. Destaque também para a próxima reportagem especial do Lobo, que anuncia, no final, que vai se dedicar a investigar três porquinhos que abriram uma construtora cujas casas “não agüentam um sopro”.
Parece-nos, portanto, que esse tipo de “desorganização” dos contos de fadas nos filmes em questão, se trabalhado em conjunto com as versões tradicionais (e outras, quando isso for possível) e mesmo com a visão fragmentada, direcionada e fechada do livro didático, pode proporcionar interessantes formas de trabalho dos textos com os alunos. A partir das diferentes versões, eles poderiam formar também as suas, relacionando as histórias com a sua realidade e com seu próprio mundo infantil e juvenil. Isso estimularia uma visão polissêmica das histórias, preocupada com a recepção dos contos de fadas (e aí se trata de pensar mesmo uma perspectiva voltada para a Estética da Recepção) e com uma efetiva formação de leitores de literatura.
Como vimos, as relações entre cinema e literatura não podem ser vistas a partir do tradicional e ultrapassado ponto de vista que atestava a superioridade de uma sobre a outra. Era aquela velha história: o livro sempre é melhor do que o filme. Bobagem, ao meu ver. Cinema e literatura possuem linguagens totalmente diferentes, que devem ser respeitadas e analisadas em suas especificidades. E, no caso de “Deu a Louca na Chapeuzinho” e “Xuxa Abracadabra”, parece que os filmes podem dar uma efetiva contribuição para que se evolua a um discurso menos “autoritário” e mais próximo do “lúdico”. Basta saber aproveitar a complementaridade destas duas linguagens tão importantes para o mundo contemporâneo.

ORLANDI, Eni Pulcinelli. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. Campinas: Pontes, 1987.

* Texto originalmente apresentado no I Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil, realizado na PUCRS, em Porto Alegre, em 2008. Publicado na revista Letras de Hoje, do curso de Letras da PUCRS, v. 43, edição de abril/junho de 2008.

sábado, 1 de maio de 2010

FILMES BRASILEIROS DE GRAÇA

Quer assistir a filmes de graça?
Acesse: http://www.blinkxbrasil.com.br/
São dezenas de clássicos do cinema nacional para assistir gratuitamente.
Entre os filmes, "Grande Sertão Veredas", "A Causa Secreta", "Boleiros", "Noite Vazia", "Sinhá Moça", entre tantos outros longas, além de curtas e médias.
Não perca!!!
Dica do Cinemas e Temas.

30 ANOS DA MORTE DE ALFRED HITCHCOCK

CLIQUE AQUI E VEJA EXCELENTE MATÉRIA DO JORNAL HOJE, DA REDE GLOBO, SOBRE OS 30 ANOS DA MORTE DE HITCHCOCK



Ele era inglês, fascinado por loiras e 30 anos depois da sua morte ainda é referência para muitos cineastas. Alfred Hitchcock, o mestre do suspense.

Esse fascínio dele pelo medo deve ser trauma de infância. O pai dele o assustava porque achava que era uma maneira de educar o filho. E ele fez do medo, uma marca
Se hoje você sua frio, se agarra na poltrona e toma sustos quando algo acontece na tela do cinema, a culpa é toda de Alfred Hitchcok.
Foi dele a ideia de criar suspense fazendo com que a gente soubesse antes o que os personagens nem imaginavam.
Criando sequências antológicas como a do assassinato no banheiro, em “Psicose”.

CLIQUE AQUI E VEJA O TRAILER DE PSICOSE

Até Steven Spielberg admitiu: fez a trilha sonora do famoso ataque do "Tubarão" inspirado nesta cena.
Certa vez o mestre do suspense, que fez mais de 60 filmes, revelou qual era a sua cena preferida.
Ela também está em Psicose. Hitchcock disse: "É o momento em que o detetive sobe as escadas e todos no cinema sabem que a velha assassina está lá em cima. A vontade de todos é de pedir para que ele pare. Mas ele termina mesmo sendo morto por ela.
O professor Richard Allen da escola de artes da Universidade de Nova York é um especialista na obra de Alfred Hitchcock. Ele conta que o mestre do suspense inovou o cinema ao colocar nos filmes a marca do diretor.
“Antes dele, as pessoas iam ao cinema apenas para ver os atores. Depois dele, também passaram a ir pra conhecer o trabalho dos diretores, iam ver um filme de Hitchcock." explica o professor Allen.
No público, Alfred Hitchcok deixou sua marca como produtor de medo e de sustos. Mas na indústria do cinema, foi além.
Hitchcock explorou a perversidade humana em seus filmes e desenvolveu técnicas inovadoras de iluminação, de enquadramentos e de movimentos de câmera para contar suas histórias.
Em "Festim Diabólico", por exemplo, onde dois amigos matam outro só para provar que podem cometer um crime perfeito, Hitchcock rodou o filme com apenas 11 cortes, sendo seis quase imperceptíveis. Isso em 1948.
Alguns segredos de Alfred Hitchcock são pouco conhecidos. Em “Janela Indiscreta”, por exemplo, um de seus maiores sucessos, Hitchcock conta a história de um homem que investiga um crime espionando os vizinhos de binóculo através da janela de seu quarto.
O homem mora em Nova York, e a história toda se passa aqui, no bairro do Greenwich Village.
Mas ao procurarmos o endereço onde no filme fica a tal "Janela Indiscreta", na Rua 9 oeste, número 125, mistério. A rua acaba de repente. E onde era para estar o prédio, está vazio. Não tem nada lá porque o prédio nunca existiu. Perfeccionista, Hitchcock inventou o endereço. Para poder rodar as cenas exatamente como queria.
Por isso, foram recriados em estúdio 31 apartamentos, 12 mobiliados. Muitos diretores famosos que vieram depois de Hitchcock se inspiraram nele. “A Aventura”, de Antonioni tem suas semelhanças com "Um Corpo que Cai". Em "Repulsa ao Sexo", Roman Polanski usou movimentos de câmera criados para "Psicose".
Por isso, não tenha dúvidas: ainda servindo como referência 30 anos depois de sua morte, Hitchcock vai continuar a assustar as plateias.
E é bom reforçar que a especialidade dele era o suspense e não o terror explícito.
E uma história super curiosa desse gênio é que ele participou de vários filmes como figurante.
Vale a pena tentar encontrá-lo nas cenas, é uma diversão à parte.

Animação "As Aventuras do Avião Vermelho" se inspira em livro infantil de Erico Verissimo

DO SITE UOL
ALYSSON OLIVEIRA
Especial para o UOL, do Cineweb

Quando o assunto é o futuro do cinema, José Maia, que atualmente trabalha como codiretor da animação “As Aventuras do Avião Vermelho”, é bastante otimista. Para ele, daqui a alguns anos tudo será exibido em 3D. Mas até lá, no entanto, ele mesmo acredita que a técnica de exibição tradicional, sem óculos para efeitos especiais, serve muito bem para contar boas histórias – como é o caso do seu longa, produzido há um ano e que deve demorar outro até ficar pronto.
“Se tiver uma boa história, você consegue contá-la até com dois palitos de fósforo”, explicou ao UOL Cinema. A boa história que ele e o codiretor Frederico Pinto, mais conhecido como Fred, estão levando para as telas vem do livro infantil “As Aventuras do Avião Vermelho”, do escritor gaúcho Érico Veríssimo, um clássico da infância de muita gente. “É uma pena que eu não tenha lido o livro quando era pequeno; acho que teria uma percepção diferente da história. Quando conto que estou fazendo esse filme, os olhos de muita gente brilham”.
Segundo Fred, que assina o roteiro com Camila Gonzatto e Emiliano Urbim, a escolha desse livro se deu por ser o mais visual do autor. “Não é necessariamente o melhor livro infantil do Érico Veríssimo, mas é o que nos dava maiores possibilidades num filme”. A obra original serve como inspiração, pois os roteiristas tiveram de expandir a história para criar trama suficiente para um longa. “Fizemos várias pesquisas e descobrimos influências de Julio Verne, por exemplo, e tudo isso nos ajudou a aumentar a trama”.
Já a animação do filme, sob os cuidados de Maia, combina o uso de duas técnicas, o tradicional 2D dos desenhos animados e o 3D feito em computador. “Essa combinação facilita o nosso trabalho. Cenários e outras coisas que tinham de ser feitas a mão, podem ser desenvolvidas em computador. Os personagens também podem ser planejados no computador e isso facilita o trabalho do desenhista e ganhamos tempo. Mas, quando o filme estiver pronto, tudo será exibido no formato convencional”, explica o diretor. Fazer uma animação nesses moldes não é muito comum e Maia acredita que seja inédito no Brasil. Com as imagens criadas em computador, o animador tem uma base para criar a cena por diversos ângulos. “É uma técnica que chamamos de 2D e meio”, brinca Fred.
Maia confessa que chegou a pensar em transformar “As aventuras do Avião Vermelho” num filme em 3D, mas acabou desistindo porque teria de fazer mudanças no meio do processo. “Eu acho que quando se quer lançar um filme em 3D é preciso pensar nisso desde o início e planejar para que ele seja assim. Mudar no meio do caminho, só para aproveitar o sucesso do formato, me parece que acaba prejudicando o resultado final, porque fazer um filme em 3D depende de muito planejamento e trabalho”.
Ao contrário da maioria das animações, em “As aventuras do Avião Vermelho” primeiramente os dubladores gravam seus diálogos e depois os desenhistas criam em cima das vozes. “Assim, os animadores podem incorporar gestuais à animação. Inclusive gravamos os dubladores trabalhando para que pudesse servir de inspiração para os desenhos”, explica Fred. O elenco de vozes do filme inclui Milton Gonçalves, Lázaro Ramos, Fernando Alves Pinto, Wandi Doratiotto e Zezeh Barbosa.
Atualmente, cerca de 23 animadores de diversos estados do Brasil trabalham no filme em Porto Alegre. Maia, que tem mais de 30 anos de experiência na área, conta que não foi muito fácil encontrar os profissionais para trabalhar com a dupla. “Algumas das pessoas que trabalham conosco foram alunos em cursos que dei sobre animação. Muitos estão começando agora e ganhando experiência com o filme”.
Fred, aliás, acredita que o filme, além de colocar diversos animadores no mercado de trabalho, tem tudo para ganhar uma parcela do público que é negligenciada pelo cinema brasileiro: as crianças. “Eu acredito que além da falta de cinema infantil no Brasil, também falta uma discussão sobre fazer cinema para criança no país. Só assim podemos conquistar essa parcela do público, se fizermos bons filmes para eles”, complementa o codiretor.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

CONGRESSO NACIONAL DE FILOSOFIA ABRE TEMPORADA DE PARTICIPAÇÃO EM EVENTOS PARA OS INTEGRANTES DO CINEMAS E TEMAS

Uma das principais propostas do Cinemas e Temas é aliar a extensão com a pesquisa. Para que isso aconteça, é fundamental a participação em eventos, apresentando as pesquisas já realizadas ou em andamento.
Em 2010, a temporada de eventos para os integrantes do projeto começou hoje, dia 30/04, sexta-feira. O Prof. Fábio Augusto Steyer apresentou trabalho no 1º Congresso Nacional de Filosofia dos Campos Gerais, promovido pela Faculdade Santana, de Ponta Grossa. O tema foi: "Cinema e Filosofia: Considerações Sobre a Imagem-Movimento e a Imagem-Tempo de Gilles Deleuze". O congresso teve a participação de pesquisadores de diversos estados brasileiros e contou com palestras e sessões de comunicações. Veja mais informações no blog do evento: http://www.congressofilosofiaiessa.blogspot.com/
Nos próximos meses, várias pesquisas serão apresentadas.
Veja a seguir alguns dos eventos:
* II Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil e I Fórum Latino-Americano de Pesquisadores de Leitura - PUCRS - Porto Alegre - RS - Trabalho do Prof. Fábio Augusto Steyer sobre os contos de fadas (Cinderela e Branca de Neve) no cinema;
* I Colóquio Internacional de Estudos Lingüísticos e Literários - UEM - Maringá - PR - Trabalhos de Bruno Scuissiatto (sobre "Cidade de Deus"), de Caroline Wilt Araújo (sobre Agatha Christie) e de Paula Starke (sobre Alfred Hitchcock);
* 8º CONEX - UEPG - Ponta Grossa - PR - Trabalhos sobre as atividades do projeto em 2010, a serem apresentados por Celine Matos, Mayara Bueno da Silva e Isadora Zemgeski;
* Semana de Letras da UFPR - UFPR - Curitiba - PR - Mesa coordenada pelo Prof. Fábio Augusto Steyer, com a participação de vários alunos do projeto.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

UM BREVE OLHAR SOBRE A HISTÓRIA DO CINEMA

POR MAYARA BUENO



Eu fiquei pensando muito sobre o que postar aqui... li alguns textos buscando algo interessante e tal. Até que um dia, visitando o blog como uma simples leitora, atentei que o nome do blog é “cinemas e temas”, então, nada mais interessante e apropriado do que falar um pouco sobre como surgiu o cinema, o nosso principal “objeto de estudo” aqui.
O cinema surgiu na mesma época da criação da fotografia, isso na segunda metade do século XIX. Segundo algumas fontes, o jogo de sombras do teatro de marionetes oriental, aproximadamente 5.000 a. C. foi um dos mais remotos percussores do cinema. Posteriormente, a câmera escura e a lanterna mágica, a partir do século XVI. Sua história inicia oficialmente com a exibição pública das produções dos irmãos Lumière (1895) em Paris, que projetaram somente imagem numa tela grande. Era o cinema mudo.

CLIQUE AQUI E VEJA ALGUNS DOS PRIMEIROS FILMES DOS IRMÃOS LUMIÈRE

Os primeiros filmes eram do gênero documentário e ficção, e depois, já no século XX, as primeiras peças de teatro são filmadas, surgindo a comédia, o romance, a aventura e tantos outros gêneros que conhecemos atualmente.

CLIQUE AQUI E VEJA ENTREVISTA COM O CRÍTICO CELSO SABADIN SOBRE SEU LIVRO: "A BARULHENTA HISTÓRIA DO CINEMA MUDO"

Hollywood se consagra no período entre-guerras como a “fantástica fábrica de filmes”, com seus grandiosos estúdios e atores, tornando-se referência mundial na produção cinematográfica até os dias de hoje. Mas, graças à globalização, ou sei lá o que, produções de outros lugares estão conseguindo reconhecimento e um lugar ao sol, para mostrar seus trabalhos pelo mundo a fora.
O cinema sofreu muitas transformações e evoluções para ser como conhecemos hoje, formato 3D e não sei mais o que... Ele acompanhou a evolução do homem e suas descobertas, tornando-se um registro de determinado tempo histórico.

terça-feira, 20 de abril de 2010

POR TRÁS DAS CÂMERAS DE STARDUST

ANA CARLA BELLON



A produção de Lorenzo di Bonaventura, Michael Dreyer, Neil Gaiman e Matthew Vaughn, baseada na obra literária homônima Stardust, de Neil Gaiman, é um filme “gostoso sem ser comédia romântica. Não vai mudar a sua vida, não vai mudar o mundo, mas diverte”. Esse foi o comentário do diretor Matthew Vaughn acerca de sua produção.
Diante deste ponto de vista fui levada a pensar: “mas, então, porque estudá-lo?”. Essa resposta foi bem simples de encontrar, assim como assistir ao filme, e no decorrer desta prévia discussão esclarecerei alguns destes porquês.
Além de divertir, o filme nos traz várias reflexões, assim como o livro de inspiração, dispensando qualquer comparação unicamente maniqueísta. Um primeiro ponto a ser tratado, muito curioso por sinal, é o fato do próprio escritor ajudar e acompanhar a produção do filme originado da sua obra. Neil Gaiman é um escritor norte-americano, considerado um dos mais inteligentes e ímpares da atualidade. Escreveu a série Sandman de quadrinhos, cuja produção lhe proporcionou os primeiros reconhecimentos.
Gaiman diz que o livro está pronto, no cinema é e deve ser outra coisa. E aí entramos em varias questões da realidade de produzir um filme, como o orçamento. No livro havia uma batalha entre um leão e um unicórnio e o comentário do diretor sobre a ausência desta batalha e a presença apenas do unicórnio é justamente essa. Diz que a princípio faria a batalha, mas que o unicórnio custou quase 10 milhões e com mais um leão estourariam o orçamento, portanto tiveram que aproveitar o unicórnio sem a batalha.
Esse tipo de situação afasta ainda mais a credibilidade de comparações entre literatura e cinema que prevêem unicamente como critério a fidelidade do filme ao texto de inspiração. E, a partir disso, podemos manter um diálogo entre literatura e cinema. Ambas as artes possuem valores distintos, podendo ser aproximadas, mas com cautela.
Outra questão a ser observada é a retratação do conto de fadas, que envolve elementos do maravilhoso; além disso, tem também um pouco de épico, jornada do herói, o narrador; a relação peculiar entre os irmãos, filhos do rei, que de tão trágica chega a ser cômica. Mais uma questão bastante interessante é o comentário do diretor sobre a contribuição do fato da atriz Michelle Pfeiffer ser um ícone de beleza na composição da personagem no filme, ou seja, a realidade que interfere e/ou colabora para a ficção.
Parece ser bastante pertinente também mostrar um pouco da obra literária. O seu autor inventou um gênero chamado “conto de fadas para adultos” e neste ponto podemos verificar, ainda, muitas outras questões, mas a principal é o que faz do livro ter esta indicação. Há muitas críticas na obra sobre os clichês ou lugares-comuns como o final feliz, o perfil do protagonista, o começo, o amor.
Enfim, é mais ou menos neste sentido que caminharão os comentários. Fica o convite pra todos participarem de mais este encontro do projeto Cinemas e Temas!!! Encerro com um trecho da obra literária:
“[...] é a única razão para um jovem como você cometer a estupidez de atravessar a fronteira [...]. Então, só pode ser por amor. [...] Ela o enviou aqui para procurar fortuna? Isso costumava ser muito popular. A gente encontra jovens andando por aí o tempo todo [...] Sabe o que eu faria? [...] Mandaria ela enfiar a cara na pocilga, sairia e encontraria outra que o beijasse sem pedir a Terra em troca.”(2007, p.77)

Abraços,


Ana Carla Bellon.