Pessoal!
Não esqueçam que no próximo sábado, dia 28, tem "Batman Begins", às 14 horas, no PEQUENO AUDITÓRIO do campus central da UEPG.
Inscrições no local e emissão de certificados para aqueles que participarem de todo o evento.
Participem!!!
Blog do CINEMAS e TEMAS - Ano IX, projeto de extensão e pesquisa da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná, Brasil.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
sábado, 21 de agosto de 2010
Instituto inglês restaura filmes mudos de Hitchcock
DO CORREIO DO POVO - 21/08/2010
Uma equipe de técnicos do Instituto de Cinema Britânico (BFI) está restaurando e digitalizando os filmes que Alfred Hitchcock realizou na época do cinema mudo, prometendo em breve surpresas para os fãs do mestre do suspense. A restauração dos filmes rodados nos anos 20 "é provavelmente o projeto mais importante empreendido até agora pelo BFI", declarou Brian Robinson, porta-voz dos arquivos do instituto.
Com a temperatura ambiente controlada, jalecos e luvas brancas, a equipe de especialistas trabalha minuciosamente para preservar os primeiros filmes de Hitchcock, mudos e que integram o acervo cinematográfico britânico. Com extrema precaução e a ajuda de um microscópio, manipulam os frágeis rolos de nitrato em busca das menores imperfeições, manchas e grãos de poeira incrustados na fita de "O pensionista" ("The lodger"), de 1926.
Os resultados do projeto de restauração e digitalização da obra do lendário diretor devem surpreender os espectadores, estima o BFI, principalmente no que diz respeito à nitidez das imagens. "Contratamos os melhores técnicos e limpamos, tiramos todos os defeitos na medida do possível das cópias mais originais do mundo, para obter uma versão mais próxima possível da original", explicou um porta-voz do instituto.
"É o Rolls-Royce em matéria de restauração de filmes. Teremos a impressão de que foi filmada na véspera", acrescentou. "Queremos fazer cópias que durem por gerações. Estas versões serão projetadas nos cinemas do mundo inteiro, e serão editadas em DVD. Fizemos Hitchcock entrar na era digital", destacou o porta-voz.
Hitchcock é considerado o grande mago do suspense, mestre do clímax e do ritmo cinematográfico por clássicos como "Um corpo que cai" (1958), "Psicose" (1960) e "Os pássaros" (1962). Seus filmes mudos, no entanto, também fizeram sucesso na Inglaterra dos anos 20.
Neste momento, o BFI restaura nove filmes em uma imensa chácara adaptada para o trabalho em Berkhamsted, no noroeste de Londres. O local também abriga os arquivos do instituto em abóbodas de 12 metros de altura. Cerca de 200 mil rolos estão empilhados do chão ao teto, em um ambiente climatizado a 5°C.
Kieron Webb, responsável técnico do projeto, compara várias amostras retiradas de "O pensionista" - considerado o primeiro Hitchcock "de verdade" - a um rolo original dos arquivos do BFI, imagem por imagem. “Pensar que se está encarregado de todos os filmes que sobreviveram da obra de um diretor, e que é a de Hitchcock, é incrível", afirmou Webb, indicando que os rolos estão em estado "lamentável". O projeto foi orçado em um milhão de libras (1,2 milhão de euros) e é financiado com doações do mundo inteiro.
domingo, 15 de agosto de 2010
PREMIADOS EM GRAMADO 2010
LONGA-METRAGEM BRASILEIRO:
Melhor Filme de longa-metragem: "Bróder", de Jeferson De
Melhor Diretor: Jeferson De, por "Bróder"
Melhor Ator: Caio Blat, "Bróder"
Melhor Atriz: Simone Spoladore, por "Não se pode viver sem amor"
Melhor Roteiro: Dani Patarra e Jorge Dúran, por "Não se pode viver sem amor"
Melhor Fotografia: Luis Abramo, por "Não se pode viver sem amor"
Melhor Trilha Musical: Jão Marcello Bôscoli e Jeferson De, por "Bróder" / Jonh Ulhoa, Ruben Jacobina e diamantino Feijó, por "Ponto Org"
Melhor Montagem: Quito Ribeiro e Jeferson De, por "Bróder"
Melhor Direção de Arte: Ana Dominoni, por "O último romance de Balzac"
Prêmio Especial do Júri: "O último romance de Balzac", de Geraldo Sarno
Prêmio da Crítica: Melhor Filme: "Diário de uma busca", de Flavia Castro
Prêmio do Júri Popular: Melhor Filme: "180º", de Eduardo Vaisman
Prêmio do Júri Estudantil: Melhor Filme: "Diário de uma busca", de Flavia Castro
LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO
Melhor Filme: "Mi vida con Carlos", de German Berger
Melhor Diretor: Nicolas Pereda, por "Perpetuum Mobile"
Melhor Ator: Gabino Rodrigues, por "Perpetuum Mobile" / "Martin Piroyanski", por "La vieja de atras"
Melhor Atriz: "Alma blanco", por "La yuma"
Melhor Roteiro: Pablo Jose Meza, por "La vieja de atras"
Melhor Fotografia: Miguel Littin, por "Mi vida con Carlos"
Prêmio Especial do Júri: "La yuma", de Florence Jangey
Prêmio da Crítica: Melhor Filme: "El vuelco del cangrejo", de Oscar Ruiz Navia
Prêmio do Júri Popular: Melhor Filme: "Mi vida con Carlos", de German Berger
Prêmio do Júri Estudantil: Melhor Filme: "El vuelco del cangrejo", de Oscar Ruiz Navia
PREMIAÇÃO - CURTA 35 MM E DIGITAL
Melhor filme: "Carreta", de Claudio Marques e Marilia Hughes / "Haruo Ohara", de Rodrigo Grota
Prêmio Especial do Júri: "Os anjos do meio da praça", de Alê Camargo e Camila Carrossine
Melhor Diretor: "Rodrigo Grota", por "Haruo Ohara"
Melhor Ator: Flavio Bauraqui, por "Ninjas"
Melhor Atriz: Elisa Volpatto, por "Um animal menor"
Melhor Roteiro: Claudio Marques e Marilia Hughes, por "Carreto"
Melhor Fotografia: Carlos Ebert, por "Haruo Ohara"
Melhor Trilha Musical: Marcelo Fruet, Boto Stanleu e Augusto Cananim, por "Amigos bizarros do Ricardinho"
Melhor Montagem: Paulo Sacramento, por "Ninjas"
Melhor Direção de Arte: Vicente Saldanha, por "Amigos bizarros do Ricardinho"
Prêmio da Crítica: Melhor Filme: "Babás", de Consuelo Lins
Prêmio do Júri Popular: Melhor Filme: "Ratão", de Santiago Dellape
Prêmio Estudantil: Melhor Filme: "Haruo Ohara", de Rodrigo Grota
Mostra Panorâmica:
Melhor Filme: "Terra deu, terra come", de Rodrigo Siqueira
MOSTRA GAÚCHA - Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema / 35MM E DIGITAL
Melhor Filme: "Um animal menor", de Pedro Harres e Marcos Contreras
Melhor Direção: William Meyer, por "Eu e o cara da piscina"
Melhor Roteiro: Pedro Harres e Marcos Contreras, por "Um animal menor"
Melhor Fotografia: Bruno Polidoro, por "Um animal menor" e "Peixe vermelho"
Melhor Direção de Arte: Lívia Santos, por "Eu e o cara da piscina"
Melhor Música: Jean Pierre Caron e Rafael Sarpa, por "Peixe vermelho"
Melhor Montagem: Denise Marchi, por "Eu e o cara da piscina"
Melhor Edição de Som: Gabriela Bervian, por "Peixe vermelho"
Melhor Produtor/ Produtor Executivo: Ana Adams, por "Peixe vermelho"
Melhor Ator: Fernando Mantelli, por "Limbo"
Melhor Atriz: Araci Esteves, por "Maldita"
Melhor Filme de longa-metragem: "Bróder", de Jeferson De
Melhor Diretor: Jeferson De, por "Bróder"
Melhor Ator: Caio Blat, "Bróder"
Melhor Atriz: Simone Spoladore, por "Não se pode viver sem amor"
Melhor Roteiro: Dani Patarra e Jorge Dúran, por "Não se pode viver sem amor"
Melhor Fotografia: Luis Abramo, por "Não se pode viver sem amor"
Melhor Trilha Musical: Jão Marcello Bôscoli e Jeferson De, por "Bróder" / Jonh Ulhoa, Ruben Jacobina e diamantino Feijó, por "Ponto Org"
Melhor Montagem: Quito Ribeiro e Jeferson De, por "Bróder"
Melhor Direção de Arte: Ana Dominoni, por "O último romance de Balzac"
Prêmio Especial do Júri: "O último romance de Balzac", de Geraldo Sarno
Prêmio da Crítica: Melhor Filme: "Diário de uma busca", de Flavia Castro
Prêmio do Júri Popular: Melhor Filme: "180º", de Eduardo Vaisman
Prêmio do Júri Estudantil: Melhor Filme: "Diário de uma busca", de Flavia Castro
LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO
Melhor Filme: "Mi vida con Carlos", de German Berger
Melhor Diretor: Nicolas Pereda, por "Perpetuum Mobile"
Melhor Ator: Gabino Rodrigues, por "Perpetuum Mobile" / "Martin Piroyanski", por "La vieja de atras"
Melhor Atriz: "Alma blanco", por "La yuma"
Melhor Roteiro: Pablo Jose Meza, por "La vieja de atras"
Melhor Fotografia: Miguel Littin, por "Mi vida con Carlos"
Prêmio Especial do Júri: "La yuma", de Florence Jangey
Prêmio da Crítica: Melhor Filme: "El vuelco del cangrejo", de Oscar Ruiz Navia
Prêmio do Júri Popular: Melhor Filme: "Mi vida con Carlos", de German Berger
Prêmio do Júri Estudantil: Melhor Filme: "El vuelco del cangrejo", de Oscar Ruiz Navia
PREMIAÇÃO - CURTA 35 MM E DIGITAL
Melhor filme: "Carreta", de Claudio Marques e Marilia Hughes / "Haruo Ohara", de Rodrigo Grota
Prêmio Especial do Júri: "Os anjos do meio da praça", de Alê Camargo e Camila Carrossine
Melhor Diretor: "Rodrigo Grota", por "Haruo Ohara"
Melhor Ator: Flavio Bauraqui, por "Ninjas"
Melhor Atriz: Elisa Volpatto, por "Um animal menor"
Melhor Roteiro: Claudio Marques e Marilia Hughes, por "Carreto"
Melhor Fotografia: Carlos Ebert, por "Haruo Ohara"
Melhor Trilha Musical: Marcelo Fruet, Boto Stanleu e Augusto Cananim, por "Amigos bizarros do Ricardinho"
Melhor Montagem: Paulo Sacramento, por "Ninjas"
Melhor Direção de Arte: Vicente Saldanha, por "Amigos bizarros do Ricardinho"
Prêmio da Crítica: Melhor Filme: "Babás", de Consuelo Lins
Prêmio do Júri Popular: Melhor Filme: "Ratão", de Santiago Dellape
Prêmio Estudantil: Melhor Filme: "Haruo Ohara", de Rodrigo Grota
Mostra Panorâmica:
Melhor Filme: "Terra deu, terra come", de Rodrigo Siqueira
MOSTRA GAÚCHA - Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema / 35MM E DIGITAL
Melhor Filme: "Um animal menor", de Pedro Harres e Marcos Contreras
Melhor Direção: William Meyer, por "Eu e o cara da piscina"
Melhor Roteiro: Pedro Harres e Marcos Contreras, por "Um animal menor"
Melhor Fotografia: Bruno Polidoro, por "Um animal menor" e "Peixe vermelho"
Melhor Direção de Arte: Lívia Santos, por "Eu e o cara da piscina"
Melhor Música: Jean Pierre Caron e Rafael Sarpa, por "Peixe vermelho"
Melhor Montagem: Denise Marchi, por "Eu e o cara da piscina"
Melhor Edição de Som: Gabriela Bervian, por "Peixe vermelho"
Melhor Produtor/ Produtor Executivo: Ana Adams, por "Peixe vermelho"
Melhor Ator: Fernando Mantelli, por "Limbo"
Melhor Atriz: Araci Esteves, por "Maldita"
terça-feira, 10 de agosto de 2010
CONCORRENTES DO FESTIVAL DE GRAMADO 2010
Confira a relação dos filmes que concorrem aos kikitos de 2010.
Longas nacionais
1 - 180º – Direção Eduardo Vaisman (Rio de Janeiro)
2 - Diário de uma Busca – Direção Flavia Castro (Rio de Janeiro)
3 - Enquanto a Noite Não Chega – Direção Beto Souza (Porto Alegre)
4 - Não Se Pode Viver Sem Amor – Direção Jorge Durán (Rio de Janeiro)
5 - O Último Romance de Balzac – Direção Geraldo Sarno (Rio de Janeiro)
6 - Ponto Org – Direção Patricia Moran (São Paulo)
7 - O Contestado – Restos Mortais – Direção Sylvio Back (Rio de Janeiro)
Longas estrangeiros
1 - El Vuelco Del Cangrejo – Direção Oscar Ruiz Navia (Colômbia/França)
2 - Historia De Un Dia – Direção Rosana Matecki (Venezuela)
3 - La Vieja De Atras – Direção Pablo Jose Meza (Argentina/Brasil)
4 - La Yuma – Direção Florence Jaugey (Nicarágua)
5 - Mi Vida Con Carlos – Direção German Berger (Chile/Espanha/Alemanha)
6 - Ojos Bien Abiertos: Un Viaje por la Sudámerica de Hoy – Direção Gonzalo Arijon
Curtas nacionais
1 - Amigos Bizarros do Ricardinho – Direção Augusto Canani (Porto Alegre)
2 - A Minha Alma É Irmã de Deus – Direção Luci Alcântara (Recife)
3 - Babás – Direção Consuelo Lins (Rio De Janeiro)
4 - Carreto – Direção Cláudio Marques E Marília Hughes (Salvador)
5 - Em Trânsito – Direção Cavi Borges (Rio de Janeiro)
6 - Eu Não Quero Voltar Sozinho – Direção Daniel Ribeiro (São Paulo)
7 - Haruo Ohara – Direção Rodrigo Grota (São Paulo)
8 - Mar Exílio – Direção Eduardo Morotó (Rio de Janeiro)
9 - Naiá e a Lua – Direção Leandro Tadashi (São Paulo)
10 - Ninjas – Direção Dennison Ramalho (São Paulo)
11 - Os Anjos do Meio da Praça – Direção Alê Camargo & Camila Carrossine (São Paulo)
12 - Pimenta – Direção Eduardo Mattos (São Paulo)
13 - Pinball – Direção Ruy Veridiano (São Paulo)
14 - Ratão – Direção Santiago Dellape (Brasília)
15 - Um Animal Menor – Direção Pedro Harres e Marcos Contreras (Porto Alegre)
16 - Vento – Direção Marcio Salem (São Paulo)
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Psicose 50 anos - por Roberto Muggiati
Hitchcock comprou os direitos de filmagem anonimamente por US$ 9 mil, mas a Paramount rejeitou a ideia. Conhecedor de todos os truques e manhas dos magnatas de Hollywood, ele fez uma contraproposta tentadora: não cobraria seu cachê de diretor (250 mil dólares) em troca de 60% da bilheteria do filme.
A Paramount alegou que todos seus estúdios estavam ocupados em outras produções; Hitchcock propôs filmar nos estúdios da Universal-International, e garantir a distribuição pela Paramount, que não fazia a menor fé no projeto, mas aceitou.
Produzido ao custo de 800 mil dólares, Psicose tornou-se o maior sucesso de bilheteria de Hitchcock, fazendo dele um multimilionário. Rodado de 11 de novembro de 1959 a 1.º de fevereiro de 1960 (80 dias), revelou Hitchcock também como um exímio financista. Ele diminuiu os custos filmando em preto e branco com uma equipe compacta de tevê (a mesma do seu programa Alfred Hitchcock Presents). Pela glória de trabalhar com Hitchcock, Anthony Perkins e Janet Leigh aceitaram cachês mais baixos, respectivamente 40 e 25 mil dólares. O cerne do filme se passa nos estúdios da Universal, onde Hitchcock fez construir uma estrutura vertical (a casa sinistra da “mãe” de Norman Bates, no estilo “gótico californiano”) e outra horizontal (o Bates Motel: “Doze quartos, doze vagas... e doze chuveiros.”) Até hoje os prédios são uma das maiores atrações para os turistas que visitam os estúdios da Universal City.
Visão humana
Outros destaques de Psicose são o eficiente roteiro de Joseph Stefano (seu segundo trabalho para cinema), os títulos e a assessoria visual de Saul Bass, e a envolvente trilha sonora de Bernard Herrmann. Mas a estrela maior de Psicose foi a cinematografia. Hitchcock usou lentes de 50mm em câmeras de 35mm — um recurso que imitava a visão humana normal e aumentava o envolvimento do espectador com o filme.
O cineasta esmerou-se também nos assassinatos da heroína (no chuveiro do motel) e do detetive (na escadaria da velha casa). Como o próprio Hitchcock resumiu: “Num filme deste gênero é a câmera que faz todo o trabalho”.
Hitchcock rodou Psicose na virada dos anos 50 para os 60, a década que trouxe transformações profundas na área dos costumes. Sintonizado com as mudanças no comportamento humano ao longo de 35 anos como diretor de filmes, ele soube penetrar nas brechas do código de censura da indústria cinematográfica americana e cometer algumas transgressões, fundamentais para o filme. A cena do chuveiro é uma delas.
Na abertura da história, Marion Crane (Janet Leight) é vista num quarto de hotel de sutiã e anágua (a imagem do poster oficial do filme). Seu amante, Sam (John Gavin) aparece de peito nu. No famoso livro de entrevistas dos dois cineastas, François Truffaut comentou com Hitchcock que essa era a única cena de uma mulher de sutiã em seus mais de 50 filmes.
Hitchcock explicou: “Eu sentia a necessidade de rodar a primeira cena desta maneira, Janet Leigh de sutiã, pois o público muda, evolui. A cena clássica do beijo sensato hoje seria desprezada pelos jovens espectadores e eles teriam a tendência de dizer: ‘É careta...’”
Privada
Também pela primeira vez um filme mostrou um vaso sanitário, não só na sua nudez explícita, mas com a descarga em ação, vista (e ouvida) em close. Marion tenta se desfazer de um bilhete que rasgou, depois de escrever. Este pedaço do bilhete será a prova de que Marion esteve no motel; no livro original, a prova é um brinco encontrado no banheiro.
Outras diferenças: no livro, Norman Bates é mais velho e mais agressivo, alcoólatra e repulsivo; Hitchcock pediu ao roteirista, Stefano, que o tornasse mais atraente e mais simpático. O clima de romance entre o amante e a irmã de Marion, no filme, passa a ser mera amizade. No livro, o detetive Arbogast morre no vestíbulo da casa; no filme, é apunhalado no alto da escada e cai de costas até o chão numa cena espetacular que deve muito à criatividade cinematográfica de Hitchcock. No livro, a cena do chuveiro é bem mais violenta: Marion tem a cabeça decepada.
Como era de se esperar, Psicose teve problemas com os censores. Alguns alegaram ter visto um dos seios de Janet Leigh na cena do chuveiro. Hitchcock deu um tempo e exibiu a mesma cena, inalterada, dias depois: quem tinha visto, não via mais, e vice-versa.
A cena foi aprovada depois que ele concordou em cortar uma tomada que mostrava as nádegas da dublê de corpo de Janet Leigh. O casal de amantes no quarto de hotel na abertura do filme também incomodou os censores. Hitchcock concordou em refilmar a abertura caso os censores aprovassem a cena do chuveiro. Os censores não compareceram no dia da refilmagem e ele deixou a abertura como estava.
Fora dos Estados Unidos, Hitchcock também teve de alterar várias cenas, principalmente a do chuveiro. Em Cingapura ela passou sem problemas, mas o assassinato de Arbogast e uma tomada do cadáver da mãe foram cortados. Na Inglaterra, proibiram os detalhes de Norman lavando as mãos sujas de sangue na pia.
O próprio Hitchcock teve dúvidas se não teria passado dos limites, particularmente na tomada final em que sobrepõe a imagem do crânio da mãe no rosto de Anthony Perkins. Algumas cópias do filme continham o efeito macabro, outras não.
Minimização
A música também desempenha um papel vital em Psicose. Responsável pelas trilhas mais significativas de Hitchcock, Bernard Herrmann não aceitou um cachê menor, mas adaptou-se ao orçamento reduzido compondo para uma orquestra só de cordas, abrindo mão de uma sinfônica completa. Esta minimização expressiva foi a sua maneira de refletir a cinematografia em preto e branco do filme.
Os violinos guinchados elevam ao auge a tensão na cena do chuveiro, com sons de pássaros que evocam as aves empalhadas e sinalizam ao espectador que é Norman, e não sua “mãe”, quem golpeia com aquela faca. Hitchcock não queria música nesta cena mas, quando Herrmann lhe mostrou um esboço, o diretor comprou a ideia. Tempos depois, Hitchcock afirmaria que “33% do efeito de Psicose foi devido à música”.
O sucesso de Psicose deveu muito à estratégia promocional montada pelo próprio Hitchcock. Mandou comprar todas as cópias existentes do livro de Robert Bloch. Seu lema era: “O segredo é a alma do negócio”.
Todos os funcionários que participaram das filmagens tiveram de assinar uma promessa de sigilo absoluto. O público devia ignorar tudo sobre a história, particularmente o final. Janet Leigh e Anthony Perkins foram proibidos de dar as costumeiras entrevistas à mídia por medo de que revelassem o enredo. Até a imprensa não teve as costumeiras sessões prévias e foi obrigada a assistir ao filme nos cinemas com o público.
A imposição mais contestada de Hitchcock às salas de cinemas foi proibir que o público entrasse depois de iniciado o filme. (Quando filas imensas se formaram já nos primeiros dias de exibição, os donos de cinema não discutiram mais.)
A exigência de Hitchcock se devia não só ao fato de que a heroína morria na primeira metade do filme (e o “herói” Norman Bates só aparece na tela depois da primeira meia hora, num filme de 109 minutos), mas também ao encaminhamento da ação pelo prisma da “mãe” de Norman Bates e ao impacto da revelação, já quase ao final do filme, de que ela havia morrido oito anos antes e não passava de um cadáver empalhado, como os pássaros que ornamentavam o Bates Motel.
Número um
Psicose foi lançado nos Estados Unidos em 16 de junho de 1960 (no Brasil em 25 de agosto do mesmo ano). Tem-se uma ideia da sua apreciação nas listas dos 100 Mais dos 100 Anos de Cinema do American Film Institute: Thriller: 1.º; Vilão: 2.º (Norman Bates); Trilhas sonoras: 4.º; Cem Melhores Filmes: 14.º; Frases de Filmes: 56.º (“O melhor amigo de um rapaz é sua mãe”).
As comemorações do cinquentenário incluem o relançamento do filme em cinemas do mundo inteiro, exibições pela tevê e o lançamento de uma edição especial da Universal em blu-ray, em 18 de outubro de 2010.
A palavra final fica com o mestre. Nas entrevistas a François Truffaut, Hitchcock confessa: “Minha principal satisfação é que o filme agiu sobre o público e esta é a coisa a que eu me agarrava muito. Em Psicose, o assunto me importa pouco, os personagens me importam pouco; o que me importa é que a junção dos trechos de filme, a fotografia, a trilha sonora e tudo aquilo que é puramente técnico puderam fazer o público urrar. Creio que é uma grande satisfação para nós utilizar a arte cinematográfica para criar uma emoção de massa. E, com Psicose, cumprimos isso. Não foi uma mensagem que intrigou o público. Não foi uma grande interpretação que transtornou o público. Não foi um romance muito apreciado que cativou o público. O que comoveu o público foi o filme puro”.
Cena mostra Norman Bates (Anthony Perkins), carregando para fora do banheiro o corpo de Marion Crane (Janet Leigh)
A maldição
Os atores Anthony Perkins e Janet Leigh viveram de certo modo à sombra dos personagens do filme até o fim de suas vidas.
Um filme com uma carga tão grande de violência e terror não deixaria de marcar aqueles que participaram mais diretamente da sua produção.
A (anti)heroína Janet Leigh até sua morte (em 2004, aos 77 anos) receberia cartas e telefonemas ameaçadores detalhando o que fariam com Marion Crane, sua personagem no filme. Uma destas cartas foi tão “grotesca” que exigiu a intervenção do FBI, que acabou localizando os autores. Mas Janet Leigh ainda fez filmes importantes, entre eles A Marca da Maldade (1958), dirigido por Orson Welles, contracenando com Charlton Heston, Marlene Dietrich e o próprio Orson; e Sob o Domínio do Mal (1962), dirigido por John Frankenheimer, ao lado de Frank Sinatra e Laurence Harvey.
Conflito
Já Anthony Perkins não teve a mesma sorte. Galã promissor, figurando em três filmes em que fazia o amante mais jovem de estrelas como Sophia Loren, Ingrid Bergman e Melina Mercouri, ficou atrelado para o resto da vida ao papel de Norman Bates. Orson Welles o colocou no papel de Joseph K em O Processo (1962), ao lado de Jeanne Moreau, Romy Schneider e Elsa Martinelli — e do próprio Welles — mas o filme foi um fracasso.
Ainda assim, Perkins sempre afirmou que seu papel em Psicose valeu a pena e jamais o recusaria, ainda que pudesse voltar atrás. Sexualmente conflitado — assim como o personagem que interpreta —, Perkins confessou que se sentia nervoso diante de mulheres e resistira a tentativas de sedução por Jane Fonda e Brigitte Bardot.
Tragédias
Apesar de rumores sobre um caso com o ator Tab Hunter, Perkins casou em 1973 com a fotógrafa Berry Berenson, irmã da atriz Marisa Berenson. Tiveram dois filhos, o ator Oz Perkins e o roqueiro Elvis Perkins.
Perkins contraiu aids por transfusão de sangue e morreu em 1992. Sua viúva, Berry, morreria no vôo 11 da American Airlines, num dos aviões que se chocaram contra as Torres Gêmeas de Nova York em 11 de setembro de 2001, um dia antes do nono aniversário de morte do marido.
Curiosidades
São apenas três minutos de filme, mas duram uma eternidade. No Bates Motel, Marion Crane recuperou o equilíbrio emocional e resolveu devolver os 40 mil dólares que roubara. Tira a roupa para tomar um reconfortante banho de chuveiro, que é também um ritual de purificação. Mal começa a lavar o corpo sob a ducha é atacada com oito punhaladas mortais de uma faca de dois gumes. O assassino, vislumbrado através da água do chuveiro, parece uma mulher, supostamente a mãe de Norman.
Nunca uma cena de cinema foi tão discutida e dissecada, dando origem a vários livros, um deles especificamente sobre o episódio, The Girl in Alfred Hitchcock’s Shower (2010), de Robert Graysmith, que afirma que a dublê de Janet Leigh, Marli Renfro, é o corpo que aparece em muitas cenas dentro do chuveiro. Já a própria Janet, no livro de 1995 Psycho/Behind the Scenes of the Classic Thriller, afirma: “Inquestionavelmente, sem nenhuma dúvida, eu estive naquele chuveiro durante sete dias muito molhados. Fiquei naquele chuveiro tanto tempo que minha pele começou a parecer uma ameixa seca”. A dublê foi usada quando Norman retira o corpo do banheiro, o embrulha na cortina de plástico e o joga no porta-malas do carro de Marion.
Outra lenda a ser desfeita sobre a famosa cena: Hitchcock não botou Janet Leigh sob água gelada para exacerbar sua reação de pânico. Segundo ela, o diretor foi bastante generoso com o fornecimento de água quente. Os gritos no episódio são todos de Janet — e altamente convincentes. A cena foi filmada em sete dias, de 17 a 23 de dezembro de 1959. Dura pouco menos de três minutos, exigiu diversas câmeras distribuídas em 77 ângulos diferentes e incluiu 50 cortes. O sangue que escorre até o ralo não é o costumeiro sangue cenográfico, mas calda de chocolate, que funciona melhor na filmagem em preto e branco. Grande parte da dramaticidade da cena se deve à música de Bernard Herrmann: aos guinchos de violinos durante as facadas e aos ostinatos de violoncelos e contrabaixos enquanto o corpo cai e ainda tenta se agarrar à cortina de plástico, arrancando-a dos prendedores. O ruído da faca entrando na carne de Marion foi feito por um contra-regra apunhalando um melão. Toda a magia da cena foi construída na montagem das centenas de metros de celulóide rodados durante a semana.
Hitchcock, com sua fabulosa cultura cinematográfica, inspirou-se na técnica de superposição de imagens dos mestres russos do cinema mudo. A boca de Janet Leigh que se abre num grito de terror lembra a cena lendária do tiroteio nas escadarias de Odessa em O Encouraçado Potemkin (1925); e ambas evocam um ícone da pintura, “O Grito”, do norueguês Edvard Munch (ironicamente massificado pelas máscaras de Pânico que a gente vê até nas gerais dos estádios de futebol brasileiros.) A genial transição do ralo para o olho de Marion, morta com o rosto no chão do chuveiro, lembra o close do olho cortado por uma navalha em Um Cão Andaluz (1929), de Buñuel. Um detalhe curioso: a mulher de Hitchcock, a roteirista Alma Reville, percebeu após a montagem dois trechos “errados”: o olho de Janet Leigh pisca e ela respira — falhas que foram devidamente cortadas.
O último mito a ser desfeito em torno da cena do chuveiro é de que ela teria sido “desenhada” pelo artista gráfico Saul Bass, autor dos títulos de Psicose e da maioria dos filmes de Hitchcock desta fase (inclusive do detalhe de olho na abertura de Vertigo/Um Corpo Que Cai.) Bass, além dos letreiros da abertura, chegou a desenhar storyboards para o filme, mas não foram usados por Hitchcock. O câmera principal do filme diz que não há uma cena sequer que ele não tenha rodado por indicação de Hitchcock. E um especialista na obra de Hitchcock diz: “Parece improvável, ou até impossível, que um perfeccionista com um ego como o de Hitchcock deixasse outra pessoa dirigir aquela cena”.
1º lugar na lista dos suspenses formulada pelo American Film Institute por ocasião do centenário do cinema é de Psicose. No mesmo levantamento, a produção de Hitchcock conquistou o 2º melhor vilão (Norman Bates) e a 4ª melhor trilha sonora.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
O mundo da animação invade Rio e São Paulo
Edu Fernandes
Da Redação
Site UOL
Da Redação
Site UOL
Todo ano, os amantes dos mais variados estilos de animação aglomeram-se em filas para conferir as sessões do Anima Mundi. Em 2010, na 18ª edição do festival, não será diferente. Mais de 450 filmes de todos os cantos do mundo serão exibidos de 16 a 25 de julho no Rio de Janeiro e de 28 de julho a 1 de agosto em São Paulo.
Entre os países participantes, o Brasil é o que tem mais produções em cartaz no evento, com 108 títulos. As demais obras vêm de países diversos, como Polônia, Taiwan, Austrália, Argentina e muitos outros. A programação contempla as mais variadas técnicas de animação e as sessões são gratuitas ou têm preços populares.
Além dos filmes selecionados entre os 1.500 inscritos, o Anima Mundi exibe a Mostra África do Sul, com produções do país que sediou a Copa do Mundo. Os realizadores Daniel Greaves e Cordell Barker, ambos laureados pelo Festival de Cannes, são convidados do evento e terão retrospectivas de seus trabalhos.
As escolas formadoras de profissionais de animação também serão lembradas, com a Mostra Escolas de Animação. Os trabalhos feitos pelos alunos da californiana CalArts (fundada por Walt Disney), da francesa Gobelins e da argentina UBA participarão de uma retrospectiva. Representantes das três entidades farão parte do Anima Forum.
Outro atrativo do festival é a pré-estreia nacional de “Meu Malvado Favorito”, produção que estreou no circuito dos Estados Unidos superando as expectativas de bilheteria. O longa, totalmente animado em um estúdio francês, terá exibições nas salas 3D Artplex em cópia dublada.
AO REDOR DO MUNDO E NO FUNDO DO MAR
Daniel Greaves e Cordell Barker não são as únicas atrações internacionais do Anima Mundi 2010. Stephen Hillenburg, criador do personagem Bob Esponja, estará no Brasil para falar de sua trajetória e responderá perguntas dos fãs durante um Papo Animado.
Nas Master Classes, o público pagante terá acesso a aulas com profissionais renomados. Em uma delas, Jordi Grangel, co-diretor do estúdio Grangel, em Barcelona, falará de criação de objetos para animações em stop-motion e do seu trabalho em “A Noiva Cadáver”. Já Andy Malcom falará de sonoplastia em animações.
O 18º Anima Mundi ainda traz uma extensa programação de debates e oficinas.
sábado, 10 de julho de 2010
Godard e Truffaut são os personagens de documentário
O documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague tem como personagens os dois diretores franceses.
BRUNO SCUISSIATTO
O diretor francês Emmanuel Laurent é o responsável pelo documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, que trata da amizade e ruptuta entre dois dos maiores cineastas franceses de todos os tempos, no caso, Jean Luc Godard e François Truffaut. Abaixo a entrevista com diretor na revista Bravo, edição de julho.
BRAVO!: Como se iniciou o seu interesse pela Nouvelle Vague?
Emmanuel Laurent: Os filmes de Truffaut me tocaram desde muito cedo e me mostraram que eu poderia fazer filmes. Tenho uma forte ligação com Jean-Pierre Léaud. Ele é o meu irmão mais novo por assim dizer. Esse é o motivo que me levou a fazer filmes. Quando comecei foi como editor de filmes e Godard é um grande exemplo de como se editar filmes. Esta foi a sua maior contribuição ao cinema.
B!: Porque focar na relação entre esses dois cineastas em um documentário?
EL: Alguns anos atrás, conheci Antoine de Baecque que estava estudando a história da Nouvelle Vague e escrevendo uma biografia sobre Godard. Nós queríamos fazer um filme sobre o movimento, mas sabíamos que fazer um filme sobre a Nouvelle Vague é uma tarefa difícil que já foi feita antes. Algumas vezes muito bem. Pensando nisso, percebemos que ninguém tinha feito algo sobre a amizade deles. Então nós decidimos contar a história dessa amizade muito rara, forte e profunda e que se confunde com o que acontecia na França naquele momento. Mostrar como eles lidaram com a situação política do país e falaram com uma geração. Além das peculiaridades como o quanto eles se financiaram mutuamente e como Godard roubou várias coisas de Truffaut para fazer como se fosse seu. Eu acredito que era uma relação maravilhosa.
B!: Qual é o maior legado que a Nouvelle Vague deixou ao cinema mundial?
EL: Nós não pensamos filmes do mesmo jeito desde que eles vieram. Antes das críticas que faziam como jornalistas, o cinema era visto como um entretenimento popular, não era visto de maneira séria. Naquela época se dissesse que Hitchicock era um grande artista você seria visto como louco. Ele não era era reconhecido por mais ninguém a não ser por eles. O cinema num geral era mal visto e o cineasta menosprezado Quando se falava em cinema, se falava em escritores (literatura) e atores (teatro) não em como se faz um filme, a luz, a construção, a edição ou qualquer outra coisa. Foram eles que transformaram o significado de fazer cinema em algo relevante a ser estudado e fizeram com que se começasse a pensar em direito autoral, "um filme de tal pessoa".
B!: É Mais fácil fazer um filme autoral hoje em dia?
EL: Eu não acho que seja fácil. Acredito que é uma batalha que nunca está ganha. Você tem que continuar lutando porque luta contra um sistema. Os produtores de cinema não querem perder dinheiro. Na Nouvelle Vague era feito esse tipo de filme que ninguém sabe o que esperar. Foi uma luta bem difícil para eles e ainda é. Sempre existem águias contra o sistema de produção norte-americano, mas nem sabemos no que estão trabalhando.
B!: Como os integrantes da Nouvelle Vague procediam?
EL: Eles faziam filmes de baixo custo financiados pelo lucro do anterior. A ideia é tentar fazer muito sucesso para poder fazer um filme maior que o outro até explodir (rs). Nós temos um exemplo disso atualmente que é o cineasta francês Roger Vadim. Ele fez filmes mais complexos do que caros e todo mundo se esqueceu dele, ninguém mais assiste aos seus filmes. Esse é um risco. Hoje se faz muitos filmes independentes, pois eles não perdem dinheiro, mas poucos assistem.
B!: Mas agora com o youtube todos podem ter acesso a essas produções independentes, não?
EL: É verdade. Com uma câmera digital, que não custa muito, você pode fazer um filme sozinho no seu quarto. Mas também é mais difícil ter um empenho estético e encontrar um estilo cinematográfico. Tenho certeza que há grandes cineastas fazendo esse tipo de trabalho, porém não é um grupo fazendo um movimento para este tipo de trabalho. Você pode postar na internet, mas como as pessoas saberão que aquilo existe? Como formar um tipo de grupo, escola e dinâmica sobre isso? Na Nouvelle Vague eles criaram uma dinâmica. No final de sua carreira todos ouviam o que Truffaut tinha para dizer. Ele era tão poderoso e seus artigos eram tão fortes que todos falavam sobre ele. E, com certeza, o lançamento de um filme seu era o evento do planeta. Então, como você encontra o ponto? Só porque você faz, você vai atrair centenas de pessoas? Você tem que encontrar alguma coisa duradoura.
B!: Existem regras para se fazer um filme?
EL: A palavra-chave pra mim é sinceridade. Eu acredito que essa é uma palavra muito importante para explicar como Truffaut e Godard faziam seus filmes. Por isso os trabalhos de Truffaut eram tão tocantes, porque eles eram muito verdadeiros sobre a realidade de sua vida. Godard era por outro motivo. Ele falava sobre o hoje, procurava lugares e pessoas que representassem a atualidade. Esse era o grande talento dele que tinha um excelente cameraman vindo dos noticiários, tentando buscar o realismo a todo o momento.
B!: Os cineastas da Nouvelle Vague sempre tinham uma mensagem a transmitir através de seus filmes. Qual é a sua?
EL: Sobre este filme, eu acredito que é uma história importante a ser contada e recontada. A melhor coisa que fazemos com a Nouvelle Vague é compará-la com os pintores impressionistas. Os pintores impressionistas tinham teorias maravilhosas contra a academia e ganharam, mas a academia veio de novo e surgiram os novos impressionistas. A ideia é que todas as gerações precisam lutar e encontrar a estética do seu tempo. O tempo da Nouvelle Vague não existe mais por isso não deve ser copiada. Você tem que encontrar o sentido de hoje.
B!: Você tem projetos para um novo filme?
EL: Com certeza. Eu ainda não morri (rs). Escrevi um livro sobre uma modelo do impressionismo chamada Victorine Meurent. Ela era uma modelo de pintor Edouard Manet vinda da classe operária. Ela se tornou uma pintora, mas suas telas se perderam e pouco se sabe sobre ela. Eu mesmo não sabia até que passei quatro anos coletando e pesquisando coisas e escrevi o livro Mademoiselle V.. Agora sei bastante e pretendo fazer uma ficção baseada em toda a sua vida. Será gravado em inglês e tem o título provisório de Diário de uma garota operária.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
O ÚLTIMO SUSPIRO
POR FÁBIO AUGUSTO STEYER
Bruno não é daqueles caras que metem bronca com tudo. É tranqüilo. Até demais. Mas aquela situação era completamente insustentável...
Tem dias em que tudo dá errado. E foi o que aconteceu naquela terça-feira, véspera de feriado.
Foi um dia de “anti-herói”, e Bruno se sentiu Macunaíma diante de tal acontecimento. Tá bom... Macunaíma, não. Talvez Dom Quixote... Cada um escolhe a personagem que melhor representar o drama encenado naquele que é o mais interessante palco de todos: a platéia.
Um detalhe que não podemos deixar de fora da história: nosso protagonista tem uma mania um tanto inusitada: é completamente viciado por suspiros!!! Bruno é capaz de qualquer coisa para conseguir um pacote deles. Chega a lamber os beiços, a salivar quando vê aqueles flocos nevados de açúcar, montanhas de gelo a provocar – coma-me! -, a transformar a razão em sentimento mais passional e ardoroso do que o de torcedor fanático em dia de clássico no futebol.
Bruno é assim. Um sujeito tranqüilo. Que devora suspiros como ninguém neste mundo. Sempre acompanhados de Fanta light. É verdade. Talvez a bebida seja o mais estranho desse vício. Sem Fanta light não tem suspiros. Não tem graça...
Pois foi assim que tudo começou.
Bruno foi ao supermercado, comprou um pacote de suspiros e um litrão de Fanta light e foi para o Cine Palladium, que naquela inspirada semana (real ou fictícia, isso ninguém sabe) estava exibindo uma retrospectiva do Fellini. O filme era “A Doce Vida”, com Marcelo Mastroianni e Anita Ekberg.
Sala vazia, véspera de feriado, dia ideal para um programa cinematográfico.
Mas aquela situação era completamente insustentável...
Luzes apagadas, filme em exibição e Bruno mastigava incansável os seus suspiros. O ranger dos dentes sobre os montes alvos e gorduchos só era interrompido pelos ávidos goles de Fanta light e pelos devaneios da bela moça na fila da frente, que suspirava toda vez que Mastroianni aparecia na tela, desviando a atenção de Bruno.
Ao arranjo gastronômico e amoroso que ritmava as ações de Bruno, enfastiado com os suspiros, e da menina que platonicamente devorava o olhar do galã italiano, veio se juntar um novo e perturbador elemento: na primeira fila, um casal de meia idade fazia amor, no chão, sob as luzes e sombras projetadas da tela em toda a sala de exibição. Roupas esvoaçantes e sussurros de glória e dor harmonizavam a coreografia daquela dança provocante e sinfônica, intensificando o estarrecimento dos espectadores das fileiras mais próximas.
Bruno é um cara tranqüilo. Até demais. Mas aquela situação era completamente insustentável...
Ele olhava para a moça em sua frente e ela parecia não perceber nada, hipnotizada pela cena de amor de Anita Ekberg e Mastroianni na Fontana di Trevi.
Mastigava seus suspiros, bebia sua Fanta light e estava completamente perturbado com aquele casal transando assim, descaradamente, na primeira fila do cinema.
E a moça não fazia absolutamente nada...
De repente, Bruno viu diante de si um suspiro gigante, que vinha em sua direção. Ameaçador, ele tinha olhos vermelhos e ovalados, e chegava cada vez mais perto. Bruno não via mais nada em seu redor, apenas o suspiro enorme, branco, sobre seu corpo, fazendo amor e sussurrando mensagens completamente inadequadas para um texto literário de respeito.
Prestes a atingir o ápice daquele momento, Bruno gritou:
- Cheeeegaaaa!!!!!
Por alguns segundos todo o cinema parou.
O casal da primeira fila interrompeu o ato e olhou para trás.
A bela moça da poltrona em frente olhou para Bruno.
Ele corou.
Ela desviou seu olhar para a Fontana di Trevi e suspirou profundamente.
Bruno encheu as narinas de ar e lentamente soltou pela boca.
Pediu desculpas para si mesmo e riu. Um riso amargo e com uma pontinha de ironia.
Enfiou a mão no pacote de guloseimas. Só havia sobrado um.
Então comeu o último suspiro, bebeu o resto da Fanta light e foi embora, pensando no ciclo de Hitchcock que começaria na semana seguinte.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Vidas Secas - cinema, Fabiano e Graciliano
BRUNO SCUISSIATTO
Uma das práticas do Cinemas e Temas é proporcionar aos participantes um contato irrestrito com vários segmentos da produção cinematográfica. Dentro disso surgiu o “Diálogos entre o cinema e a literatura”, que traz para o cerne do projeto a literatura, certamente o maior filão utilizado como argumento para uma tradição fílmica.
Ao relacionar a literatura com o cinema recaímos sobre o campo das adaptações, uma tradição corriqueira nas sétima arte. Como invenção tardia em relação ao teatro e a própria literatura, o cinema tem apenas pouco mais de um século de nascimento, talvez isto explique de alguma forma um reaproveitamento do discurso literário pelo cinema.
Atualmente a quantidade de roteiros adaptados é uma tendência dentro da produção cinematográfica, seja nos filmes produzidos com incentivos de editais de fomento à cultura no Brasil ou mesmo nos estúdios de Hollywood. No Brasil o mercado de adaptações é uma das marcas em nossa cinematografia, seja pela Cinema Novo ou marginal, e, ainda com os filmes produzidos após o cinema da reabertura.
Pequeno histórico do cinema e literatura pelo romance de 30
Por se tratar de semiologias distintas o cinema não tem a pretensão de repetir a prosa literária, pois respeitadas as fronteiras, a teoria da literatura pode ser utilizada dentro do discurso cinematográfico. Um dos traços mais fortes do Cinema Novo foi o desprezo pela retórica, tão comumente aplicada no cinema nacional centrado nas correntes européias. Assim, a produção extremamente voltada para as denúncias sociais do nordeste brasileiro na prosa literária de 30, tornou-se um dos argumentos mais fortes para os cineastas adaptarem para o formato fílmico muito da produção literária.
Assim, durante o período em que aflorou o movimento do Cinema Novo em 1963, com a trilogia do sertão, – Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos), Os fuzis (Ruy Guerra) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha), inúmeros filmes foram resultados das adaptações da literatura brasileira produzida no século XX. Uma das questões levantadas por este cinema foi levar para os projetos fílmicos questões nacionais, dialogando com as denuncias sociais, um dos traços marcantes dentro do Cinema Novo, porém também promovendo um diálogo com as produções literárias, musicais e teatrais daquele momento, principalmente em filmes notáveis como: Vidas Secas (Pereira dos Santos, 1963), Menino do Engenho (Walter Lima Jr, 1965), A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos, 1965) e Macunaíma (Joaquim Pedro, 1969).
Nelson Pereira dos Santos o trabalho com a literatura sempre foi muito contundente dentro de sua filmografia, do mesmo Graciliano Ramos ele adaptou para o cinema o romance Memórias do Cárcere em 1984. Outros filmes do cineasta foram resultados de sua fiel aproximação com a literatura nacional: Boca de Ouro (1962) de Nelson Rodrigues, A Terceira Margem do Rio (1994) de João Guimarães Rosa e Casa Grande Senzala de Bernardo Guimarães em 2000.
Algumas passagens de Vidas Secas
A estrutura narrativa de Vidas Secas respeita o ritmo dos ingás secos do sertão alagoano. Rodado na Fazenda do Encantado, distante cerca de 30 quilômetros de Palmeiras dos Índios, local em que foi ambientado o enredo da obra. Com uma fotografia preta e branca o filme representa com fidelidade a saga da família de Fabiano. Mesmo que seja uma produção pautada no cinema, ela acaba dialogando de forma verossímil com o romance de Graciliano Ramos.
Um dos argumentos contundentes dentro das narrativas de Vidas Secas é que todo o espaço fílmico é pelo viés dos personagens centrais. O recurso de utilizar no processo da montagem das cenas “slow-ups” (câmera lenta), principalmente nas cenas de abertura dos filmes, talha o sentimento que perpassa os limites da projeção e explodem no peito do expectador. Principalmente na caminhada da família de Vidas Secas, na qual a ausência de som é apenas preenchida pelo atrito dos pés no solo seco.
A narratividade de Vidas Secas é conduzida pelo viés de Fabiano faz das cenas sempre um reflexo das andanças do sertanejo. Mesmo nos diálogos escassos, como a própria vegetação do sertão alagoano, o foco sempre é do pai de família.
A opção de deixar a narrativa ser conduzida pelo personagem de Fabiano, denota a ideia dos seus conflitos. Desde o começo da película, temos um sertanejo que alastra todo seu sentimento aos outros, inclusive aos pensamentos oniscientes da cadela Baleia. As condições explicitadas por Nelson Pereira dos Santos são sumárias, a exposição conflitante de um homem simples com a teorização da censura, principalmente na jogatina na qual o Soldado Amarelo o enquadra. Como fato denunciante no longa, fica evidente a opção de utilizar Fabiano como um precursor da estética das falas esparsas.
Muitos mais detalhes são perceptiveis no filme, principalmente se olharmos para o espaço fílmico como não uma chegada final, mas sim, uma grande saída, como o é a própria cena final de Vidas Secas.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
O extraordinário narrador de narrações
Sérgio Rizzo - Revista Cult
Como definir a obra de Eduardo Coutinho? Algumas tentativas são recorrentes e apontam, com formulações ligeiramente distintas, para horizontes complementares. Seria um “cinema do encontro”, como foi apresentado no título da retrospectiva dedicada a ele em outubro de 2003 pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Seus curadores, Cláudia Mesquita e Leandro Saraiva, utilizam outra expressão, cinema “olho no olho”, na apresentação do catálogo. “No centro de seu método, está a fala de alguém sobre a sua própria experiência, alguém escolhido porque não se espera que se prenda ao óbvio, aos clichês relativos à sua condição social”, observa o professor e ensaísta Ismail Xavier em um dos textos reunidos nesse mesmo volume.
Criador e diretor do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que elegeu em 2000 Cabra Marcado para Morrer (1984) como o mais importante filme de não ficção realizado no Brasil, o crítico Amir Labaki prefere, em seu livro Introdução ao Documentário Brasileiro, a expressão “cinema de conversa” para identificar a “variante particular do instrumento da entrevista” usada pelo diretor. Já a professora e jornalista Consuelo Lins, autora de O Documentário de Eduardo Coutinho – Televisão, Cinema e Vídeo e colaboradora do cineasta em Babilônia 2000 (2001) e Edifício Master (2002), fala em “cinema da palavra filmada”, que “aposta nas possibilidades de narração dos seus próprios personagens”. Ou, como sublinha Claudio Valentinetti no livro-entrevista O Cinema segundo Eduardo Coutinho, obra realizada por um “extraordinário narrador de narrações”.
“Entender as razões do outro, sem lhe dar razão”
Encontro, conversa, olho no olho. Fala, palavra filmada, narração. Aparentadas, essas palavras-chave dão conta do que, objetivamente, tratam os filmes que fizeram do cineasta, hoje com 77 anos, referência obrigatória para o documentário na passagem do século 20 para o 21, pouco mais de cem anos depois das primeiras experiências de registro de cenas do cotidiano em imagens feitas na França e nos Estados Unidos – a aurora, portanto, do que hoje chamamos de produção documental. Nos filmes de Coutinho, é mais ou menos isso, em drástico resumo, o que se vê e se ouve. A experiência de assistir a eles, no entanto, vai muito além do que essas palavras-chave sugerem. A estratégia da conversa olho no olho, em encontro do cineasta e de sua equipe com seus personagens anônimos, propicia, com seu rigor metodológico, um cinema peculiar em que – atenção: quem define agora é o próprio Coutinho – o interesse está no que resulta “precário, incompleto, parcial, que não diz tudo porque não pode dizer tudo”.
Encontro, conversa, olho no olho. Fala, palavra filmada, narração. Aparentadas, essas palavras-chave dão conta do que, objetivamente, tratam os filmes que fizeram do cineasta, hoje com 77 anos, referência obrigatória para o documentário na passagem do século 20 para o 21, pouco mais de cem anos depois das primeiras experiências de registro de cenas do cotidiano em imagens feitas na França e nos Estados Unidos – a aurora, portanto, do que hoje chamamos de produção documental. Nos filmes de Coutinho, é mais ou menos isso, em drástico resumo, o que se vê e se ouve. A experiência de assistir a eles, no entanto, vai muito além do que essas palavras-chave sugerem. A estratégia da conversa olho no olho, em encontro do cineasta e de sua equipe com seus personagens anônimos, propicia, com seu rigor metodológico, um cinema peculiar em que – atenção: quem define agora é o próprio Coutinho – o interesse está no que resulta “precário, incompleto, parcial, que não diz tudo porque não pode dizer tudo”.
“O que me interessa é aquilo que não sou eu, ou aquilo que não sei”, disse ele ao participar de um colóquio do II Congresso de Jornalismo Cultural, promovido em maio pela CULT. A frase é variação de outra, mais antiga e também reveladora do que o move: “Entender as razões do outro, sem lhe dar razão”. Para isso, ele fica sempre ao lado da câmera, a “uns 30 centímetros do entrevistado, sentindo o bafo dele”, e disposto a obter daquela “personagem concentrada” (tal como se revelará ao espectador, em depoimento editado, na versão final do filme) alguém “mais interessante do que a (própria) pessoa”. “É uma conversa em que o desejo da pessoa de falar e o meu de ouvir se cruzam”, resume. Cinema do “aqui e agora”, e não do “aqui e ontem” ou do “ali e amanhã”. Cinema do instante, do presente. E da busca pelo belo que se revela na “imperfeição” humana.
Documentário? Para Coutinho, trata-se de um “sistema”, e não gênero, que se distingue da ficção porque filma “pessoas que existiram, existem e existirão, se não morrerem durante as filmagens”. O diretor torna-se “responsável” por elas, equilibrando-se na “corda bamba” ética de decidir o que fazer com o que mostram e dizem. Tentativas de delimitação do território documental à parte, Coutinho – cujos longas mais recentes, Jogo de Cena (2007) e Moscou (2008), embaralham as cartas dos “sistemas” – gosta da palavra em inglês para cineasta (que considera “um termo pomposo”): “filmmaker”, ou “fazedor de filmes”. “A arte fala de si mesma, e cada vez mais penso que os filmes também falam de si mesmos”, afirma.
Pois foi um ilustre “fazedor de filmes”, o inglês Charles Chaplin (1889-1977), quem contribuiu indiretamente para que o paulistano Eduardo de Oliveira Coutinho investisse na profissionalização nessa área. Estudante de direito no início dos anos 1950, foi revisor e copidesque da revista Visão. Fez o célebre Seminário de Cinema organizado pelo Museu de Arte de São Paulo em 1954 e, graças ao prêmio recebido em um programa de TV no qual respondia a perguntas sobre Chaplin, mudou-se para Paris, onde estudou no hoje lendário Institut des Hautes Études Cinématographiques (IDHEC), que deu origem em 1986 à Femis (École Nationale Supérieure des Métiers de l’Image et du Son), uma das mais prestigiadas escolas de cinema do mundo, mas que, segundo Coutinho, pouco o ajudou em sua formação.
A saga de Cabra Marcado para Morrer
De volta ao Brasil no início dos anos 1960, aproximou-se do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), inicialmente em São Paulo, como integrante do grupo teatral dirigido por Chico de Assis. Em 1962, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Foi gerente de produção do longa Cinco Vezes Favela, que abandonou para assumir o projeto UNE Volante, registrando as passagens do grupo por diversas cidades brasileiras para um documentário que jamais seria concluído. Graças a esse trabalho, no entanto, teria um encontro que seria determinante em sua carreira: ao filmar um protesto pela morte do líder camponês João Pedro Teixeira na Paraíba, conheceu sua viúva, Elizabeth Teixeira.
De volta ao Brasil no início dos anos 1960, aproximou-se do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), inicialmente em São Paulo, como integrante do grupo teatral dirigido por Chico de Assis. Em 1962, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Foi gerente de produção do longa Cinco Vezes Favela, que abandonou para assumir o projeto UNE Volante, registrando as passagens do grupo por diversas cidades brasileiras para um documentário que jamais seria concluído. Graças a esse trabalho, no entanto, teria um encontro que seria determinante em sua carreira: ao filmar um protesto pela morte do líder camponês João Pedro Teixeira na Paraíba, conheceu sua viúva, Elizabeth Teixeira.
Dois anos de percalços foram vividos por Coutinho antes que, em fevereiro de 1964, começasse a rodar, em Pernambuco e com verba da UNE, um longa semidocumental sobre a vida de João Pedro, com Elizabeth e outros camponeses no elenco: Cabra Marcado para Morrer. Interrompidas pelo golpe militar, as filmagens somaram pouco mais de uma hora e os negativos só não foram perdidos porque o pai do cineasta David Neves, que era general, os armazenou em casa. Perseguida, Elizabeth precisou trocar de nome e fugiu. Coutinho só a reencontrou depois da anistia, quando decidiu retomar o projeto. Agora, já se tratava de um documentário de investigação, de rumo desconhecido: a ideia central era saber o que havia ocorrido com os camponeses desde a interrupção das filmagens.
Um filme sobre um filme inacabado, ou sobre o que restou da equipe de um longa planejado para ser ficção e que se transformou, com o lançamento em 1984, em outro Cabra Marcado para Morrer. “Coutinho vai estimular a memória de seus interlocutores, no presente, oferecendo, de um lado, o acesso à visão das imagens do passado e, de outro, favorecendo, por meio de uma escuta atenta, a emergência de uma palavra, que surge através de uma série de diálogos intersubjetivos”, observa o professor e documentarista Henri Arraes Gervaiseau em ensaio também publicado no catálogo da retrospectiva do CCBB. “A maior parte dos depoimentos que Coutinho recolheu são narrativas de vida, e essas não devem ser consideradas como simples narrativas factuais, mas sobretudo como instrumentos de reconstrução da identidade dos sujeitos”. Estabeleciam-se, assim, as coordenadas que orientariam o dispositivo de seus longas seguintes, de Santo Forte a Moscou.
A sublimação do silêncio
Nos 20 anos que separam o início de Cabra… de sua conclusão, Coutinho permaneceu ativo, tanto no cinema quanto na televisão. Foi corroteirista de A Falecida (1965) e Garota de Ipanema (1967), ambos de Leon Hirszman, de Os Condenados (1973), de Zelito Viana, de Lição de Amor (1975), de Eduardo Escorel, e do maior sucesso de público na história do cinema brasileiro: Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto. Dirigiu o episódio “O Pacto” (do longa O ABC do Amor, 1967), a comédia O Homem que Comprou o Mundo (1968) e o filme de cangaço Faustão (1971). No início dos anos 1970, voltou ao jornalismo, trabalhando no Jornal do Brasil. De 1975 a 1984, outra experiência-chave, na Rede Globo, como montador e diretor do Globo Repórter. Foi um período antológico na história do telejornalismo brasileiro – que, segundo ele, não tem hoje a menor chance de ser revivido porque, entre outros motivos, “na TV atual você pode fazer tudo, menos 2 segundos de silêncio”.
E momentos de silêncio, como sabem os que conhecem seus filmes “de conversa” e “da fala”, são muitas vezes os pontos altos de depoimentos, quando o personagem “trava” por algum motivo e o espectador consegue vislumbrar (ou especular) o que o mantém assim. São também oportunidades para que se procure “filmar o invisível”, como bem exemplifica Santo Forte, na sequência antológica em que Coutinho pergunta a uma personagem onde estão os espíritos aos quais ela se refere. “Estão aqui”, diz ela. No plano seguinte, por segundos que pareceriam intermináveis e proibitivos na atual TV brasileira, vemos apenas um quintal vazio (será mesmo?) e ouvimos um silêncio estrondoso.
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