POR ROSANA GELINSKI
“Encarar a vida de frente. Encarar sempre a vida de frente. E conhecê-la como ela é. Enfim conhecê-la. Amá-la pelo que ela é. E depois... Descartá-la. Sempre os anos entre nós. Sempre os anos... Sempre... O amor. Sempre... As horas.” (DALDRY, 2003)
Muito mais do que essa impressão das horas e dos anos esperam pelos espectadores do filme As Horas, de Stephen Daldry (2003). Inspirado no romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, o filme é uma adaptação do livro As Horas, de Michael Cunningham, e apresenta uma narrativa não linear. Assim como no romance de Woolf, o diretor optou pela consciência das personagens, que é uma das questões de maior destaque no filme. A forma como o diretor mostra o universo subjetivo das personagens aproxima-se muito da linguagem literária introspectiva de Virginia Woolf.
A subjetividade que é somente internalizada pelos leitores de Mrs. Dalloway é vivenciada pelos espectadores em As Horas. Desta forma, o filme ilustra, de forma convincente, como o fluxo de consciência ocorre, ao mostrar a recorrência de momentos que estão minuciosamente inseridos no cotidiano das personagens, três mulheres separadas pelo tempo, cujas vidas estão intimamente interligadas pela obra Mrs. Dalloway.
Além do fluxo de consciência, tanto a obra Mrs. Dalloway quanto o filme As Horas propiciam discutir temas ligados ao feminismo, a dicotomia vida/morte, loucura, tempo, guerra e outros.
Vale à pena conferir! E deixar se levar pelas imagens do filme de Daldry, que tem muito a revelar sobre a vida e obra de Virginia Woolf, e o que se esconde atrás do comportamento humano.
Blog do CINEMAS e TEMAS - Ano IX, projeto de extensão e pesquisa da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná, Brasil.
sábado, 29 de maio de 2010
sábado, 22 de maio de 2010
O CINEMA ESPETÁCULO E O ANTI-FILME
POR FÁBIO AUGUSTO STEYER
Nos dois últimos dias, situações opostas moveram minha fome de cinema.
Ontem à tarde, no único multiplex aqui de Ponta Grossa, fui assistir ao blockbuster em 3D do momento: o remake de "Fúria de Titãs". Afinal, vivemos na época em que o sucesso de um filme depende da quantidade de cópias lançadas pela distribuidora!!!
O simples fato de ser refilmagem de uma obra de que gosto bastante já seria motivo de interesse. Mais a mitologia grega e estaria fora de questão deixar de assistir.
Um bom filme, mas nada além do original, que ainda é um tanto melhor. Mudaram um pouco a narrativa mitológica, mas isso é inerente à própria mitologia: a existência de várias versões da mesma história. O filme mais recente é até um pouco mais claro em algumas passagens, como a explicação que dá para a origem de Calibus. Os efeitos especiais são muito bons, mas não têm o mesmo impacto que tiveram na época os do filme original. Uma coisa bem legal é a homenagem que fizeram à corujinha Bubo, uma das personagens essenciais e memoráveis do primeiro filme.
As decepções são a trilha sonora (muitíssimo melhor no filme da década de 1980) e a total inexistência de efeitos 3D!!! Parece incrível, mas o filme só foi lançado em 3D para atrair público. Não há um só efeito que justifique o ingresso caro de 3D. Portanto, fica aqui a dica: gaste menos grana e veja a versão convencional.
Bom, mas essa foi apenas a minha primeira experiência cinematográfica dos últimos dois dias. Foi a do "cinema espetáculo".
A outra foi "O Signo do Caos", derradeiro filme do "marginal" Rogério Sganzerla, exibido no projeto "Cinearte", no Teatro Ópera, também aqui em Ponta Grossa. Nesse verdadeiro "anti-filme", o falecido e consagrado diretor literalmente vomita a cultura brasileira goela abaixo de nós, meros espectadores acostumados a narrativas convencionais como "Fúria de Titãs". Não é filme para ser lançado em salas regulares de exibição comercial. É daqueles que espantam espectadores, que não agüentam ficar até o final do filme. Nunca leve uma garota, no primeiro encontro, a um filme de Sganzerla ou a um filme iraniano: ela vai largar você na hora... É sério!
Na verdade, a experiência cinematográfica de Sganzerla é esteticamente provocante e interessante demais para ganhar uma só cópia que seja em exibição nos cinemas convencionais. Com temperos de brasilidade (como o assovio de "Aquarela do Brasil"), o que vemos na tela é uma mistura do cinema marginal à la Bandido da Luz Vermelha, figurinos e iluminação de policial noir e o contraste gritante de luz e sombra do expressionismo alemão. A montagem, premiada no Festival de Brasília, é maravilhosa, e às vezes lembra a experiência surrealista de Buñuel e Dalí em "Um Cão Andaluz" (como no início da segunda parte do filme, em cores). A parte inicial, em preto em branco, é mais bem-sucedida, especialmente pelos engenhosos e provocativos diálogos. Aparentemente sem sentido, vão fundo na alma do fazer cinema, da estética em si, da vida do ser humano e da cultura brasileira, num mosaico que só mesmo um mestre do deboche anárquico no cinema, como Sganzerla, poderia fazer.
Enfim...
Está posto o duelo do cinema espetáculo versus o anti-filme.
Cada um que saque suas adagas - ou pistolas.
Prefiro ver a luta de longe, como mero espectador.
Afinal, penso que ambos têm uma contribuição significativa para a história do cinema.
O mundo seria bem melhor se os críticos de cinema não torcessem o nariz para "Fúria de Titãs".
E se o espectador comum tivesse um mínimo de senso estético para suportar ficar sentado na poltrona até o final de "O Signo do Caos".
SEMANA DE EVENTOS PARA O CINEMAS E TEMAS
POR FÁBIO AUGUSTO STEYER
A próxima semana será repleta de eventos para o pessoal do Cinemas e Temas.
Na segunda, estaremos em Curitiba, apresentando mesa-redonda na Semana de Letras da UFPR. Participação de Celine, Mayara, Fernando, Bruno e Amanda. A coordenação ficou comigo.
Em seguida, este que vos escreve ruma a Porto Alegre para apresentar trabalho no XIV Seminário Nacional de Literatura e História - 200 Anos do Romantismo, organizado pela FAPA (Faculdades Porto-Alegrenses).
E no sábado, terceira sessão dos "Diálogos Entre Literatura e Cinema", com o filme "As Horas" e comentários de Rosana Gelinski.
E nas próximas semanas tem mais...
Haja fôlego!!!
A próxima semana será repleta de eventos para o pessoal do Cinemas e Temas.
Na segunda, estaremos em Curitiba, apresentando mesa-redonda na Semana de Letras da UFPR. Participação de Celine, Mayara, Fernando, Bruno e Amanda. A coordenação ficou comigo.
Em seguida, este que vos escreve ruma a Porto Alegre para apresentar trabalho no XIV Seminário Nacional de Literatura e História - 200 Anos do Romantismo, organizado pela FAPA (Faculdades Porto-Alegrenses).
E no sábado, terceira sessão dos "Diálogos Entre Literatura e Cinema", com o filme "As Horas" e comentários de Rosana Gelinski.
E nas próximas semanas tem mais...
Haja fôlego!!!
sexta-feira, 21 de maio de 2010
FILME TAILANDÊS SOBRE FÁBULA BUDISTA VENCE PALMA DE OURO
DO SITE UOL
THIAGO STIVALETTI
Colaboração para o UOL, de Cannes
THIAGO STIVALETTI
Colaboração para o UOL, de Cannes
Foi uma escolha ousada, mas maravilhosa e muito justa. O júri presidido por Tim Burton concedeu a Palma de Ouro ao filme tailandês “Uncle Boonmee who can recall his past lives” (Tio Boonmee que se lembra de suas vidas passadas), de Apichatpong Weerashetakul, um filme difícil mas encantador sobre um homem doente na floresta da Tailândia que lembra de suas antigas reencarnações, como peixe e outros animais.
Tim Burton foi honesto com aquilo que mais lhe atrai nos seus próprios filmes: a magia e a fantasia. “O mundo está mais ocidentalizado, e esse é um filme de outro país que usa elementos de fantasia de uma outra maneira. É um sonho estranho e bonito como não costumamos ver”, declarou após a premiação.
“Obrigado ao público por me dar uma chance de compartilhar meu mundo com vocês. Agradeço todos os espíritos e fantasmas da Tailândia que me permitiram estar aqui”, agradeceu Apichatpong.
Juliette Binoche vence prêmio de Melhor Atriz em Cannes
Juliette Binoche e Javier Bardem confirmaram seu favoritismo como melhor ator e atriz do festival. Mas houve uma surpresa: Bardem dividiu o prêmio com o italiano Elio Germano de “La Nostra Vita”, que fez um belo discurso atacando o premiê Silvio Berlusconi: “Nosso presidente nos critica dizendo que fazemos filmes que falam mal da Itália; quero apenas dizer que a Itália um país maravilhoso, apesar da nossa classe dirigente”.
Antes da cerimônia, a apresentadora Kristin Scott-Thomas fez mais um protesto contra a prisão do iraniano Jafar Panahi: “O festival termina hoje e a cadeira do jurado Panahi continua vazia. Este é o nono dia de sua greve de fome. Steven Spielberg nos ligou e lembrou que o Festival de Cannes é uma fortaleza que protege o cinema, uma porta para a liberdade. Esperamos que ele esteja aqui no próximo ano”.
A lista de apresentadores digna de Oscar contou com atores como Emmanuelle Béart, Kirsten Dunst, Guillaume Canet, Diane Kruger, Salma Hayek e Charlotte Gainsbourg.
Premiados:
Palma de Ouro
“Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives”, de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)
Grande Prêmio do Júri
“Des Hommes et des Dieux” (de homens e deuses), de Xavier Beauvois (França)
Melhor Ator
Javier Bardem, por “Biutiful”, de Alejandro González Iñárritu (México/Espanha)
Elio Germano, por “La Nostra Vita”, de Daniele Luchetti (Itália)
Melhor Atriz
Juliette Binoche por “Copie Conforme”, de Abbas Kiarostami (França/Itália/Bélgica)
Melhor Diretor
Mathieu Amalric, por “Tournée” (França)
Melhor Roteiro
Lee Chang-dong, por “Poetry” (Coreia)
Prêmio do Júri
“A Screaming Man”, de Mahamat-Saleh Haroun (Chade)
Caméra d’Or – melhor primeiro longa-metragem
“Año Bisiesto”, de Michael Rowe (México) – Quinzena dos Realizadores
Palma de Ouro - melhor curta-metragem
“Chienne d’Histoire”, de Serge Avedikian (França)
Prêmio do Júri – curta-metragem
“Micky Bader”, de Frieda Kempf (Dinamarca)
LIVRO DE JORGE AMADO É BASE DA TRAMA DE "QUINCAS BERRO D'ÁGUA"
DO SITE UOL
O livro, no entanto, é apenas um ponto de partida - nunca o de chegada, ou seja, o longa não se limita apenas a explorar os personagens e situações do original.
Com elegância e respeito pelo original, Machado toma os personagens e temas de Jorge Amado para si e os transforma em personagens cinematográficos.
Fora das páginas do livro, eles ganham outra dimensão, outros significados, assim, como a morte do protagonista. Paulo José, que em seu currículo conta com personagens marcantes como o padre, de "O Padre e a Moça", "Macunaíma", ou Edu, de "Edu Coração de Ouro", acaba de criar mais um tipo inesquecível - especialmente por conta de sua interpretação.
Pode parecer simples interpretar o papel de um morto, mas Paulo empresta ao personagem nuances e cores que faltam a muitos vivos (dentro e fora das telas). Seu risinho irônico é um comentário mordaz à hipocrisia de sua família que insiste em varrer para debaixo do tapete seu passado recente de boemia. Mariana Ximenes ("Hotel Atlântico") faz a filha, Vanda, e Vladmir Brichta ("Romance") é o genro almofadinha, acomodado na vidinha burguesa.
Essa é a família oficial. Mas, no fundo, mais conta aquela família de amigos que escolhemos para nós e, nesse quesito, Quincas estava muito bem servido com Pastinha (Flavio Bauraqui, de "Meu Nome não é Johnny"), Pé de Vento (Luis Miranda, de "Jean Charles"), Cabo Martim (Irandhir Santos, de "Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo") e Curió (Frank Menezes, conhecido ator de comédia baiano, que também participou de filmes como "Tieta").
Cada um tem o seu perfil, suas qualidades e fraquezas. Tal qual Dorothy e seus três amigos em "O Mágico de Oz", Quincas e seu quarteto estão em busca de algo, para o grupo e para si - mas, talvez, não estejam cientes dessa jornada.
Pastinha é medroso, Pé de Vento é desbocado, o Cabo tem a bravura, mas talvez lhe falte um pouco de modéstia, e Curió é o eterno sonhador que busca um amor. Dos quatro, ele é a figura mais patética, querendo declamar versos com a maquiagem do rosto borrada de lágrimas.
Fora os amigos, Quincas deixa para trás um grande amor, Manuela, prostituta madura, melancólica e infeliz com a perda do amado. Marieta Severo, que faz a personagem, lhe confere uma dose de dignidade que talvez outra atriz não conseguisse.
O amor, que a muita coisa redime, é a razão de ser dessa mulher que, agora, sem Quincas estará sozinha. Com o peso da idade, talvez jamais encontre novamente outro homem para estar com ela. Amor mesmo, esse parece que foi só um.
Já a personagem da filha Vanda é mais bem desenvolvida no filme que no livro. A morte do pai, com quem ela não tinha contato há alguns anos, é uma catarse, um grito, um aviso de que a vida passa. A faz perceber como o tempo passa rápido e talvez não tenhamos chance de fazer tudo aquilo que queremos, pretendemos ou merecemos.
"Quincas Berro D'Água" deixa uma lição não apenas para Vanda. É preciso viver intensamente o presente. Quincas teve a chance de ganhar uma última noite de esbórnia, de festa com os amigos. Ele pode, mesmo morto, aproveitar a vida. Mas é um caso raro.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
Quincas Berro D'Água, nascido Joaquim Soares da Cunha, um dia foi um respeitado funcionário público. Mas isso foi há muitos anos, quando ele ainda acreditava na humanidade, na família, nos valores burgueses. Infelizmente, ele morre no dia em que completaria 72 anos. Esse detalhe, no entanto, não impede que seus quatro amigos - que estão mais para escudeiros - lhe dêem uma última noitada.
"Quincas Berro D'Água", adaptação do romance "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água", de Jorge Amado, roteirizada e dirigida por Sérgio Machado ("Cidade Baixa"), que chega aos cinemas do Brasil nessa sexta-feira, segue em linhas gerais a obra original, uma das mais vendidas do escritor baiano, morto em 2001.
O livro, no entanto, é apenas um ponto de partida - nunca o de chegada, ou seja, o longa não se limita apenas a explorar os personagens e situações do original.
Com elegância e respeito pelo original, Machado toma os personagens e temas de Jorge Amado para si e os transforma em personagens cinematográficos.
Fora das páginas do livro, eles ganham outra dimensão, outros significados, assim, como a morte do protagonista. Paulo José, que em seu currículo conta com personagens marcantes como o padre, de "O Padre e a Moça", "Macunaíma", ou Edu, de "Edu Coração de Ouro", acaba de criar mais um tipo inesquecível - especialmente por conta de sua interpretação.
Pode parecer simples interpretar o papel de um morto, mas Paulo empresta ao personagem nuances e cores que faltam a muitos vivos (dentro e fora das telas). Seu risinho irônico é um comentário mordaz à hipocrisia de sua família que insiste em varrer para debaixo do tapete seu passado recente de boemia. Mariana Ximenes ("Hotel Atlântico") faz a filha, Vanda, e Vladmir Brichta ("Romance") é o genro almofadinha, acomodado na vidinha burguesa.
Essa é a família oficial. Mas, no fundo, mais conta aquela família de amigos que escolhemos para nós e, nesse quesito, Quincas estava muito bem servido com Pastinha (Flavio Bauraqui, de "Meu Nome não é Johnny"), Pé de Vento (Luis Miranda, de "Jean Charles"), Cabo Martim (Irandhir Santos, de "Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo") e Curió (Frank Menezes, conhecido ator de comédia baiano, que também participou de filmes como "Tieta").
Cada um tem o seu perfil, suas qualidades e fraquezas. Tal qual Dorothy e seus três amigos em "O Mágico de Oz", Quincas e seu quarteto estão em busca de algo, para o grupo e para si - mas, talvez, não estejam cientes dessa jornada.
Pastinha é medroso, Pé de Vento é desbocado, o Cabo tem a bravura, mas talvez lhe falte um pouco de modéstia, e Curió é o eterno sonhador que busca um amor. Dos quatro, ele é a figura mais patética, querendo declamar versos com a maquiagem do rosto borrada de lágrimas.
Fora os amigos, Quincas deixa para trás um grande amor, Manuela, prostituta madura, melancólica e infeliz com a perda do amado. Marieta Severo, que faz a personagem, lhe confere uma dose de dignidade que talvez outra atriz não conseguisse.
O amor, que a muita coisa redime, é a razão de ser dessa mulher que, agora, sem Quincas estará sozinha. Com o peso da idade, talvez jamais encontre novamente outro homem para estar com ela. Amor mesmo, esse parece que foi só um.
Já a personagem da filha Vanda é mais bem desenvolvida no filme que no livro. A morte do pai, com quem ela não tinha contato há alguns anos, é uma catarse, um grito, um aviso de que a vida passa. A faz perceber como o tempo passa rápido e talvez não tenhamos chance de fazer tudo aquilo que queremos, pretendemos ou merecemos.
"Quincas Berro D'Água" deixa uma lição não apenas para Vanda. É preciso viver intensamente o presente. Quincas teve a chance de ganhar uma última noite de esbórnia, de festa com os amigos. Ele pode, mesmo morto, aproveitar a vida. Mas é um caso raro.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
Um cinema documental plural no Brasil: violência e fome [1]
[1] Trabalho apresentado na I Semana de Enfrentamento à Violência contra crianças e adolescentes do curso de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
Bruno Scuissiatto - graduando Português/Espanhol UEPG.
Resumo:
O presente resumo ensaístico pretende destacar filmes da cinematografia nacional que estão em constante movimento com a realidade brasileira, principalmente no que concerne os problemas em torno da violência. Para esse trabalho será utilizado a leitura prévia, embasando os direitos das crianças e adolescentes agredidos pelas mazelas sociais em dois documentários de amplo destaque dentro de nossa tradição fílmica. Ônibus 174 (2002) e Garapa (2008) do diretor José Padilha (Tropa de Elite) trabalham com o preceito do cinema documental. As produções mesmo que tenham sido realizadas em momentos diferentes, concentram problemas nacionais, rompendo as fronteiras dos relatos da cidade do Rio de Janeiro e do estado do Ceará visualizados nos documentários. Esses temas supracitados surgiram nos inúmeros encontros do grupo de pesquisa e extensão “Cinemas e Temas”, atrelado ao Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Estadual de Ponta Grossa e coordenado pelo professor Doutor Fábio Augusto Steyer. Ao longo de pouco mais de um ano de atividades o projeto atendeu uma plateia de mais de 400 espectadores presentes nas sessões de cinema, além de participar com seu grupo de pesquisa de diversos congressos, colóquios e seminários das áreas de letras. Destacando-se como o único projeto da área de letras a participar da última edição do SEURS – Seminário de Extensão da Universidades da Região Sul, realizado em Santa Maria no Rio Grande do Sul com uma oficina intitulada “Cinemas e Temas”.
Introdução
O cinema enquanto produto cultural é normalmente vinculado ao grande apelo comercial e cultural que consegue atender uma grande proporção de pessoas, seja pelo viés dos espectadores ou mesmo pelas discussões em torno do material fílmico concebido. A cinematografia brasileira, principalmente nos últimos vinte anos tem voltado os trabalhos para ficcionalizar o entorno de uma realidade brasileira factual. Há uma forte predominância de filmes históricos1, principalmente centrados nas ditaduras, permitindo uma reconstrução com um olhar moderno do passado, como nos filmes Zuzu Angel2 e O ano em que meus pais saíram de férias3. Na outra ponta da ficção cinematográfica brasileira temos o alcunhado “favela movie4”, que lidera boa parte das bilheterias da história do cinema nacional. Cidade de Deus5 e Cidade dos Homens6 são exemplos de filmes calcados na realidade das comunidades e entornos das favelas cariocas. Porém um dos campos que possui uma montagem diferente da simples acepção entre entretenimento e ficcionalidade é o documentário. Na obra “Mas afinal ... o que é mesmo documentário?”o autor, define:
Em poucas palavras,documentário é uma narrativa com imagens-câmera que estabelece asserções sobre o mundo, na medida em que haja um espectador que receba essa narrativa como asserção sobre o mundo. A natureza das imagens-câmera e, principalmente, a dimensão da tomada através da qual as imagens são constituídas determinam a singularidade da narrativa documentária em meio a outros enunciados assertivos, escritos ou falados.(RAMOS, 2008, p.22)
Entrelaçar a realidade documental é um dos caminhos da produção cinematográfica desde o surgimento do cinema no inicio do século passado na França, quando os Irmãos Lumiere7 retratavam nas películas imagens dos operários nas fábricas ou mesmo o vai e vem dos passantes nas ruas.
Objetivos
Dentro do Cinemas e Temas8, projeto extensionista agregado ao DELET – Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Estadual de Ponta Grossa, que é coordenado pelo professor Doutor Fábio Augusto Steyer, existe os possíveis diálogos das narrativas cinematográficas com temas emoldurados pelas montagens fílmicas. Para o presente trabalho serão explorados dois documentários dirigidos por José Padilha9 – Ônibus 17410 (2002) e Garapa (2008) no campo que concerne à relação com questões inerentes à violência contra crianças e adolescentes.
O principal apontamento que vale ressaltar no caso dos dois documentários são as fronteiras do fazer documental invadir as cenas dos acontecimentos sem o uso de um dos artifícios fundamentais para as filmagens: um roteiro inicial. No caso de Ônibus 174 a utilização das imagens do seqüestro aconteceu casualmente, a partir da câmera de Padilha ligada da janela do seu escritório no Jardim Botânico, zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Já em Garapa a equipe de filmagem se dirigiu até o Ceará sem um roteiro prévio, o único contato inicial foi com os dados de algumas organizações não governamentais. Como o próprio diretor relata no site do documentário: “Não viajei meses antes e fiquei escolhendo os personagens do filme, fomos para lá e logo começamos a filmar as famílias que encontramos”.
O seqüestro da linha 174, rota Gávea - Central traz a tona um dos acontecimentos que mais acomete a urbanidade: as mazelas causadas pelas crianças de rua. Seja no plano periférico, por eles retratarem uma parcela do país que está a margem dos direitos humanos. Como diz a fala de um dos sociólogos presentes no documentário: quantos Sandros existem por aí? Mas a cegueira coletiva não percebe.
O amarramento da narrativa documental se faz pelo flashback utilizado ao longo da exibição, estabelecendo uma busca cronológica no passado do seqüestrador Sandro do Nascimento. Padilha explica o motivo dos depoimentos: Os depoimentos colhidos, o levantamento dos dados e a investigação efetuada nos revela que as raízes do mal plantado naquela tarde carioca estavam profundamente fincadas nas mazelas sociais e econômicas do país.
A espetacularização do evento naquela tarde de 12 de junho de 2000 por meio de diversos meios de comunicação tem alguns dados interessantes: A TV Bandeirantes tinha 40 minutos de imagens gravadas do seqüestro; a Rede Record, 4 horas; e a TV Globo, 20 horas, pois deslocara quatro câmaras para a cobertura do episódio. Padilha comprou 50 minutos de imagens dessas emissoras para montar o filme. Ou seja, entrelaçar os diversos depoimentos deixou uma marca de extenso diálogo com a realidade social, sendo o seqüestro apenas a ponta do “iceberg”.
Uma das teorias da literatura fala sobre narração sumária11, aplicando esse conceito neste documentário, podemos perceber que Sandro teve uma série de artifícios para se tornar um dos exemplos corriqueiros da banalidade dos direitos sociais das crianças em voga em esquinas e praças de nossas cidades. Sumariamente o episódio da chacina da Candelária, que vitimou diversos meninos de rua na região da igreja no centro do Rio de Janeiro, inclusive o próprio Sandro, é um dos algozes responsáveis pela violação dos direitos do bem estar social contra crianças e adolescentes. Usar tal exemplo como justificativa do seqüestro em junho de 2000, não é a intenção do documentário, nem mesmo do proposto trabalho.
O filão de documentários centrados no envolvimento de crianças e adolescentes com a violência urbana, principalmente no campo do tráfico de drogas, pode ser visto em outras produções recentes. Notícias de uma guerra particular (1999) de João Moreira Salles e co-direção de Kátia Lund e Falcão: meninos do tráfico (2006) de MV Bill e Celso Athayde.
A intensidade da tomada documentária estabelece os parâmetros que vão conformar a imagem do popular, oscilando constantemente para as dimensões de um horror carregado de miserabilismo. O popular criminalizado surge na tela com imagens exasperadas, cheias de tensão, evolvendo a representação explícita, e em detalhe, dos aspectos mais degradantes da vida cotidiana das parcelas mais pobres da população brasileira. A criminalização e o miserabilismo são, portanto, pedras angulares na representação do popular no documentário brasileiro contemporâneo, calcadas na clivagem social que compõe, em essência, a sociedade brasileira. (RAMOS, 2008, p. 210)
O cenário deixa para trás a omissão do estado em fornecer aos meninos e meninas de rua uma oportunidade que não seja finalizada dentro do noticiário factual em forma das mais vastas violências. A agressão documental deixa o cenário paradoxal do Rio de Janeiro e sobe para o nordeste brasileiro, também com seus encantos naturais, mas igualmente paradoxais nas relações de crianças e adolescentes frente seus direitos.
Garapa retrata uma parcela mínima do problema da fome no Brasil, focado em três perspectivas diferentes do mesmo tema: a desnutrição na cidade grande, na cidade pequena e cidade longe de tudo.
Diferente do que normalmente se vincula ao senso comum a desnutrição não ocorre somente pela falta de comida, mas sim pela forma como as pessoas se alimentam. Neste quesito o título do documentário é auto-explicativo: Garapa é a mistura de água com açúcar preparada para alimentar as crianças. “O que explica dois fenômenos muito comuns: pessoas desnutridas e obesas, e o grave problema dentário que muitas crianças desnutridas têm”, conta Padilha.
O ponto alto da produção é que ela não é construída na sociologia em torno da forma, mas documenta a fome do ponto de vista de quem realmente a sente.
Na obra “Geografia da Fome”, escrito em 1946, Josué de Castro12 cria uma distinção entre a fome aguda, aquela em que as pessoas ficam sem comer nada e que em determinado prazo leva à morte, e a fome crônica (ou subnutrição crônica), que se manifesta em populações muito carentes de elementos essenciais da alimentação. Neste viés é que muitas crianças e adolescentes estão colocadas, padecendo de uma falta mínima do direito de qualquer cidadão: o acesso a uma alimentação balanceada.
O problema central de Garapa não é apenas denunciar as mazelas de uma parte do Brasil, sim mostrar pontos de encontro entre a realidade que muitas vezes não vemos. Como afirma o diretor: Gostaria muito que Garapa fosse um filme anacrônico, mas os dados mostram o contrário. Há três anos existiam 850 milhões em situação de insegurança alimentar no planeta, no ano passado eram 910 milhões, e a tendência é esse número aumentar porque o preço dos alimentos está subindo. Isso sem levar em consideração a crise financeira. É o contrário do anacrônico, portanto: é atual.
Conclusão
Com estes dois documentários de Padilha encontramos denuncias que estão propagadas em grande parte do Brasil. De um lado a violência contra crianças e adolescentes em crescente escala, no outro a questão da fome, muitas vezes as duas estabelecendo uma relação intrínseca.
Manuela Penafria, da Universidade da Beira Interior, em Portugal, define sobre o papel do documentário como linguagem e gênero audiovisuais. Mais do que simplesmente ser um “espelho do real”, o documentário promove discussões na sociedade e dá significado à realidade.
Calcado nisso podemos perceber que os referidos documentários de Padilha são cada dia mais atuais nas conversações necessárias para o enfrentamento das violações dos direitos humanos, principalmente no que tangem as crianças e adolescentes.
Referências
DAMATTA, Roberto. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
DUARTE, Rosália. Cinema & educação: refletindo sobre cinema e educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal ... o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.
Sem Poirot para elucidar
Bruno Scuissiatto
Os mistérios são um dos argumentos que movem a nossa imaginação. Cotidianamente ou não, temos uma breve percepção dos espaços preenchidos pelos enigmas – nas passadas apressadas atrás da própria sombra na infância ou deslocando nosso olhar para encontrar uma solução aritmética em uma avaliação de matemática no ensino fundamental. Aumentando os anos e parafraseando o poeta Mário Quintana, a adultice é uma invenção. Abstraia-se com as imagens e movimentos do cinema e se permita ser mais um dos personagens. Esse é o convite do Cinemas e Temas.
A inovação, se é que esta palavra ainda pode ser usada em um mundo que torna a obsolescência maratonista de 100m rasos, marcou o ciclo “Agatha Christie” do Cinemas e Temas. No decorrer do projeto, que já teve os ciclos – A morte no cinema e a mitologia no cinema, pela primeira vez os filmes exibidos foram baseados ou adaptados de romances homônimos de uma mesma escritora, no caso, Agatha Christie. Neste caso cabe um comentário pertinente a historiografia literária da escritora inglesa, que muitas vezes é descrita apenas como mais uma dentro do imenso universo de autores de romances. Nem mesmo as peças de teatro a salvam muitas vezes da ira desenfreada de críticos e deuses do olimpo canônico. Como afirma o escritor e crítico literário Miguel Sanches Neto em seu ensaio “Uma erótica da escrita”: A crítica deve abrir mão de seus conceitos centrípetos e passar a contemplar os grandes narradores que souberam falar ao “Querido Leitor”, autores excluídos do cânone da modernidade por conta de uma lógica perversa: se eles tem leitores, não precisam de consagração critica.
Não muito diferente a linhagem pura do cinema faz algo parecido com a da literatura, normalmente tornando cult aqueles filmes que conseguiram despontar ao largo dos anos. Porém, se a película tem um viés pop, atrelado ao sucesso comercial na receita multiplicada pelo número de espectadores não pode fazer parte do cânone cinematográfico. Será pecado isso?
Com a extensa obra de Agatha Christie não seria diferente a quantidade excessiva de filmes derivados das criações da escritora, ainda mais quando precisamos reforçar que o cinema desde sua consolidação tem como uma das características essa busca incessante nas questões do fomento literário.
Ao levar a este ciclo do Cinemas e Temas - “Assassinato no Expresso do Oriente” (1974) e “Testemunha de Acusação” (1957), por mais que as produções tenham um abismo de quase duas décadas em seus lançamentos, é nítida a aproximação entre elas, principalmente no que tange a montagem. “A Casa do Penhasco” (1989), um dos episódios baseados na obra da autora tem o lado pop avassalador, principalmente pela presença do imponderável investigador Poirot. A fotografia causa impacto e transforma “A Morte no Nilo” (1978)em um filme que alterna o formato pop com o cult - por mais que certos manuais ainda não permitam tal deifinição. O ponto iconoclsta dentro do ciclo é certamente a presença de “Assassinatos a Bordo” (1964) com a presença certamente da espiã mais bonachona do imenso universo de personagens criados por Agatha Christie, a impagável Miss Marple, neste caso interpretada de forma sublime pela atriz Margaret Rutherford.
Para uma plateia com certa timidez em responder aos comentários ao final das sessões, ficou clara a proposta do projeto, exibir, discutir e permitir a visualização de olhares múltiplos sobre o cinema, inclusive trazendo a projeção de curtas metragens, destacando esse fecundo gênero fílmico tão inovador e experimental.
Ao coordenar o ciclo tive a impressão que a conclusão de forma correta somente ocorreu pelo desenvolvimento de toda equipe. Cada um se doando de uma forma - Carol, Amanda, Fernando, Flávia, Isadora e Paula com suas percepções levadas a todos os presentes. Ao Giovan pela imensa contribuição, isso se tornando um fato corriqueiro desde sua entrada no projeto. E, a Néia, que estreou de forma destacável nos trabalhos. Além da Celine e da Mayra presentes e confiantes no que é o projeto proporciona. Enfim, ao professor Fábio por nos proporcionar o incentivo a pesquisa e aprendizado constante.
Quando os Lumière criaram o cinematógrafo provavelmente não imaginariam a repercussão que provocariam em torno das questões do cinema e seus temas. O Cinemas e Temas com seus ciclos proporcionam ao cinema novos rumos da discussão e da pesquisa, contribuindo para a comunidade acadêmica da UEPG e pontagrossense ainda a deriva de um local único de projeções fílmicas.
Que venha o próximo ciclo – Hitchcock nos aguarda.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Todo mundo espera alguma coisa...
Celine Aparecida de Matos
... de um sábado a noite. Se você espera um pouco de entretenimento com qualidade, talvez possa se interessar pelo programa Zoom, da TV Cultura.
No ar desde 1995, o Zoom foi um dos primeiros programas da TV aberta brasileira dedicado a exibir e divulgar o cinema nacional. Como o seu próprio site define, o programa é uma revista eletrônica cujo tema é cinema. Atualmente sob a apresentação da curitibana Flávia Sherner, são exibidos curtas-metragens, animações e bastidores de filmes.
Através de vários quadros, o programa traz entrevistas com produtores brasileiros e internacionais, apresenta as últimas notícias cinematográficas e conta com críticos como Neusa Barbosa, Ana Paula Souza, Celso Sabadin, Cássio Starling e Marcos Petruceli. Mostra também algumas curiosidades como o primeiro filme de vários produtores conhecidos, trilhas sonoras e cenas marcantes do cinema mundial, bate-papo com artistas ligados à sétima arte e bastidores.
Você pode acompanhar o arquivo do programa no site: http://www.tvcultura.com.br/zoom e também pode seguir o Zoom no twitter: http://twitter.com/zoomtvcultura.
O programa Zoom é exibido aos sábados às 22h30 e reprisa nas madrugadas de sexta para sábado às 01h00. Da próxima vez em que você for ficar em casa no sábado a noite e não estiver a fim de assistir humor barato lembre-se desse programa de que irá entreter e informá-lo. Vale a pena dar uma olhada.
sábado, 15 de maio de 2010
A(s) Morte(s) no Nilo de Agatha Christie
O longa Morte sobre o Nilo de 1978 fechou o ciclo sobre Agatha Christie no Cinemas e Temas.
Paula Starke
A contribuição da autora britânica Agatha Christie para o romance policial é imensurável e indiscutível. Responsável por algumas das obras mais traduzidas no planeta, Agatha criou personagens memoráveis como a curiosa Miss Marple e, é claro, o presunçoso detetive Hercule Poirot.
Presente em mais de trinta obras, Poirot é um personagem dotado de diversas características que lhe são particulares. Em A Morte no Nilo, publicado originalmente em 1937, Poirot demonstra muito de sua personalidade ao deparar-se com um de seus casos, em plenas férias.
O tal caso envolve Linnet Ridgeway, uma jovem milionária que, como se não bastasse, também é loura e linda, sua amiga Jacqueline de Bellefort, desprovida de tanta sorte, e o noivo de Jacqueline, Simon Doyle.
Acontece que Jacqueline, ou Jackie, pede a Linnet que conceda um emprego ao noivo, como favor. Pouquíssimo tempo depois, Linnet e Simon encontram-se casados. Não há uma descrição exata de como essa aproximação ocorreu. A situação toda fica subentendida, causando certa surpresa ao espectador.
Dá-se dessa forma na obra de Agatha Christie e também em sua versão cinematográfica Morte sobre o Nilo (Death on the Nile), de John Guillermin, 1978. O longa-metragem inglês conta com Peter Ustinov como Poirot, além de figuras como Mia Farrow, Maggie Smith, Bette Davis - um pouco adiante de seu auge no cinema, mas ainda admirável - Olivia Hussey e Jane Birkin. Além de David Niven que, como o Coronel Race, convence como antigo amigo de Poirot, tamanha a naturalidade entre ambos em cena. Vale destacar que enquanto o Coronel está trabalhando em um caso totalmente alheio no livro, no longa a investigação também é sobre Linnet.
Outras divergências entre a obra literária e o longa são rapidamente percebidas. Personagens como a Senhora Allerton e o filho Tim, além da prima desajeitada da Senhorita Van Schuyler, Cornelia, são descartados nessa versão cinematográfica, tendo a parte importante de seus papéis delegada a outros. Os personagens que continuam também sofrem diversas modificações.
É claro que, se tratando de Agatha Christie, se espera que um crime aconteça (crimes, nesse caso). O que não se espera é o final dessa trama. Morte no Nilo tem uma resolução excelentemente construída. Torna-se, de fato, impossível que o leitor desvende o acontecimento com todas as suas particularidades. Há uma infinidade de detalhes a serem analisados.
Mas não é impossível para Hercule Poirot, é claro. O detetive, em ambas as obras, parece ser dotado de capacidades extraordinárias de raciocínio. Aliás, não só de raciocínio, mas até humanas. Poirot é quase onipresente. Em grande parte das conversas suspeitas ou incriminadoras do longa, lá está o detetive. Seja apenas de passagem, tirando uma soneca ou jogando damas, Poirot se faz presente em um piscar de olhos. Há uma cena risível, no filme, em que o investigador surge repentinamente detrás de um balcão de bebidas, enquanto Linnet tem uma discussão com o Dr. Bessner.
Registre-se aqui que há uma sucessão de fatos que tornam personagens como o de Dr. Bessner suspeitos, no longa. Uma justificativa para que a desconfiança reine sobre todos, a partir de certo momento na história. No livro, essa suspeita também se estende a todos, mas tudo é traçado mais sutilmente. Essa diferença é compreensível, tendo em vista a brevidade de uma obra cinematográfica.
Mesmo com todas essas implicações, necessárias para a produção de uma obra paralela à original, Morte sobre o Nilo mantém o mesmo suspense provocado na leitura de A Morte no Nilo. A narração satisfaz também em outros tantos aspectos, contendo até certo tom humorístico em algumas passagens. Não é de se surpreender quando dizem por aí ser essa a obra favorita da Rainha do Crime.
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